domingo, 4 de outubro de 2015

SÃO FRANCISCO DE ASSIS, arauto da paz e do serviço!





A sabedoria de São Francisco de Assis (1182-1226) é sacramentalmente representada pela dimensão do serviço. Vivencia o serviço com sua entrega pelo amor e caridade aos pobres. Enquanto modelo de servidor, manifesta sua missão mediante um grande desafio, a edificação da comunidade por meio e graça da santidade, testemunho e doação aos pobres. Além do constante exercício da dimensão espiritual, através do culto e da reflexão evangélica, no seguimento do Cristo e na atividade edificante de testemunhar o amor de Deus.

Sua vocação se confirma ao escutar e atender o apelo do Altíssimo: “Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está em ruínas”. Doravante sua missão evangelizadora de humanizar a comunidade eclesial e o mundo feudal, Francisco exerce seu ministério do serviço não com a prática da comunidade (franciscana) em direção aos pobres, mas a práxis a partir dos pobres, com a vivência e amor para com os pobres, com o objetivo de transformar a comunidade e a sociedade tomando como modelo o projeto do Reino de Deus, conforme anuncia Tiago em sua carta apostólica: "Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do Reino que Ele prometeu aos que o amam?” (Tg 2,5).

O jovem de Assis rememora pelo seu testemunho o amor de Cristo servidor, em um contexto histórico marcado por atribulações e pelas intempéries de um período hostil e banalizado pelo individualismo. Nele o Espírito Santo ecoa com o chamado cristocêntrico para o exercício do serviço, prefigurado pela rica metáfora do gesto do lava pés dos discípulos: “Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13,15).


Sua missão enaltece a chama dos homens de bom coração, aqueles que perante o mundo são fracos e marginalizados, mas podem colaborar como servos no projeto salvífico de Deus, porque a dimensão franciscana revive também a missão da comunidade cristã, com aquelas pessoas que se inspiram na ética do cuidado e se entregam ao serviço dos pobres. Afinal, também estes vivem Pentecostes: “até sobre os meus servos (doulous) e minhas servas (doulas) derramarei do meu Espírito naquelas dias, e profetizarão” (At 2,18).

São Francisco de Assis, arauto da paz e do serviço, encarna a solidez da razão (logos), que se instaura para equilibrar a paixão (pathos) humana, comove e coloca os homens de joelhos para contemplar a perfeição da criação de Deus. Ele representa iconicamente o homem consciente e virtuoso, subvertendo sua alma, para inspirar os bons exemplos de uma vida dedicada às pequenas coisas do mundo, fazendo-nos reaprender o sentido da própria vida nos anos que ainda nos resta diante deste mundo atribulado e poluído. E das pequenas às grandes coisas que experimentamos em cada instante da vida, Francisco de Assis com seu espírito de obediência, pobreza e castidade, se faz mediador das criaturas (criações de Deus) ao apre(e)nder com os sinais transcendentes que tudo aquilo que é obra divina representa a manifestação da paz, desde a mera contemplação de uma aranha que desce no produto de seu longo trabalho, ao esplendoroso encantamento do Sol que abraça o dia repleto de vidas.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

O Papa Francisco e Hill pelo “mundo de ponta cabeça”







A décima viagem diplomática e missionária do Papa Francisco inscreve na História contemporânea uma página marcante nestes dias de profunda desumanização dos povos, tempos de crise financeira, violência urbana (da Síria via extremistas do Estado Islâmico até os excluídos que promovem arrastões na zona sul carioca), corrupção, xenofobia contra migrantes clandestinos e (re) definição geopolítica diante do novo paradigma da “era das catástrofes” para o século XXI, aludindo à metáfora do historiador Eric Hobsbawm. 

A nova missão do Santo Padre, mensageiro franciscano, é digna de aplausos até dos mais agnósticos e obcecados ideólogos da direita, da esquerda ou do centro, ela inquieta e incomoda, pelo poder sem pleonasmos de sua anunciação. Personifica profeticamente as palavras apostólicas de São Tiago:  

“Onde houver ciúme e contenda, ali há também perturbação e toda espécie de vícios. A sabedoria, porém, que vem de cima, é primeiramente pura, depois pacífica, condescendente, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, nem fingimento. O fruto da justiça semeia-se na paz para aqueles que praticam a paz” (Tg 3,16-4). 

Sua missão tem sido insistentemente marcada pelos sinais de Paz. 

Contam os anais jornalísticos que em 1973, em plena Guerra Fria, o então presidente de Cuba, o socialista Fidel Castro foi perguntado pelo jornalista de uma agência de notícias britânica, Brian Davis, se ele acreditava que seriam restabelecidas as relações internacionais entre Cuba e Estados Unidos em um futuro próximo, já que se tratava de países tão distantes ideológica e politicamente, mas bem próximos geograficamente. E a resposta de Fidel foi enfática “Os Estados Unidos só voltarão a dialogar conosco quando tiverem um presidente negro e quando houver no mundo um Papa latino-americano.  

Quarenta anos depois, a profecia de Fidel se concretiza num contexto favorável, sobretudo para marcar o processo "pós-moderno" no qual o mundo se encontra atualmente, fortemente perpassado por uma luta desenfreada pela desterritorialização, sacralização do mercado e redefinição de fronteiras nacionais, ideológicas, religiosas etc., principalmente porque na atual conjuntura somam-se 65 muros fronteiriços pelo mundo, quando na época da Guerra Fria, tempos da geopolítica “capitalista-socialista” do muro de Berlim, tínhamos 16 muros espalhados pelo mundo. Hoje os muros são muito mais invisíveis, eles são definidos pelo poder e violência simbólica.  

Fazendo alusão da clássica obra do historiador inglês Christopher Hill sobre a missão do Papa Francisco em Cuba e Estados Unidos, ele escreveu “O mundo de ponta-cabeça: idéias radicais durante a Revolução Inglesa de 1640” de tradição neomarxista. Hill não reproduziu uma análise sobre a revolução burguesa do séc. XVI a partir dos discursos da estrutura oficial, baseada na medicina, direito ou teologia, nem tão pouco pela contenda economicista na História. Preocupou-se em historiar a luta pela liberdade sob o ponto de vista da multidão, a partir das experiências do povo. Nesta perspectiva da historiografia social inglesa, o povo representa um elemento determinante para entender as nuances da historicidade, sobretudo como peça fundamental para construção de um movimento revolucionário, cujo bojo encontra-se no processo produtivo de acumulação de capital e nas transformações estruturais. Sua abordagem revisa as mudanças históricas, que possibilitam o nascimento de uma segunda via de contra cultura popular e comunal.  

Hoje, Hill é lembrado pela metáfora da inversão social “o mundo de ponta cabeça” ou naquilo que o Papa Francisco resgata da divida histórica dos tempos da “Guerra Fria” exaltando uma reflexão profunda em torno da ”Paz”. 

Não precisamos de muitas teorias sociais para entender a dinâmica do processo atual, quando é encontrada nas palavras do Sumo Pontífice sua incisiva luta diplomática nos moldes kantianos e da sabedoria cristã, muito distante dos estratagemas da época da cortina de ferro. 

Palavras como: 

“Os cristãos cubanos devem ‘servir’ aos mais frágeis na sociedade e ‘não servir-se’”.

“Há um 'serviço' que serve, mas devemos ter cuidado com o outro serviço, a tentação do 'serviço' que 'se' serve”.

Sobre o povo cubano “um povo que tem gosto pela festa, pela amizade, pelas coisas belas [...] É um povo que têm feridas, como todo povo, mas que sabe estar com os braços abertos, que marcha com esperança, porque sua vocação é de grandeza”. 

Afirmações proferidas no último domingo, dia 20 de setembro, quando o Papa Francisco defendeu a rejeição de qualquer “ideologia” no serviço às pessoas, diante de uma multidão presente na Praça da Revolução em Havana, marcam sua postura evangélica e diplomática. Nos seus vinte seis discursos programados o tom será marcado por mensagens que buscam resgatar a dignidade humana, tolerância, alteridade e mobilização popular. Seguramente ao discursar nesta semana na Organização das Nações Unidas – ONU sua Encíclica Laudato Si será lembrada, já que com ela se irrompe as fronteiras do parlamento mundial para lembrar da “casa comum” e a ecologia integral como elementos determinantes para reconfigurar o “mundo de ponta cabeça”.  Só assim Fidel e Obama devem pensar seriamente em substituir 'endurecer' por 'amolecer' o coração: "Hay que amolecer, pero sin perder la ternura jamás".








sábado, 19 de setembro de 2015

Lévinas, o espelho que revela o Outro em mim

 
 
 
 
 
 
Comumente estamos preocupados com o tempo, principalmente nas atividades diuturnas que exigem dedicação e cuidado com a vida familiar, trabalho, lazer, descanso e até a vida afetiva. Porém, a humanidade nos últimos séculos, pouco sentido deu a importância que a atividade ocupacional possui para melhoria da qualidade de vida e para afirmação da solidariedade como valor ético. Geralmente influenciados pela sociedade de mercado, preocupamo-nos em saber quantos anos levam para nossa vida ter progresso financeiro, se nossos filhos serão, um dia, realmente aquilo que nós desejamos que sejam, se teremos uma velhice tranquila com estabilidade financeira.  
Com efeito, estes questionamentos não passam de mera efemeridade, pois, em boa parte das ocasiões, o que preocupa as pessoas tem sido a transitoriedade do tempo corrido e de quanto se leva para possuir bens materiais ou conquistas pessoais, negligenciamos em grande medida as mudanças que nos proporcionam o bem viver com os outros. Porém, compreendê-las, dando importância a compreensão do sentido existencial neste mundo "comum" torna-se urgente. 
Sobre este aspecto, nos chama a atenção o filósofo Emmanuel Lévinas (1906-1996), defensor da questão da categoria da alteridade, que segundo ele, é a forma para experimentar a ética intimamente associada ao agir, como sendo um valor que não propõe uma epistemologia do transcendente (teoria do conhecimento sobre Deus), mas defende uma redescoberta dos valores cujo elemento central passa a ser a questão ética (respeito de si mesmo a partir da acolhida e respeito ao Outro). Sua teoria do conhecimento não tem como ênfase um discurso teológico sobre Deus ou Infinito, mas da compreensão da ação do Infinito divino na criação, isto é, o ser (ontológico) não é o elemento preponderante para o conhecimento, mas sim a grandeza ética do Ser Infinito que se expressa nas relações de convivência entre os homens. Neste aspecto, a cultura judaico-cristã nos ajuda a compreender que a harmonização da vida, consequentemente a salvação (escatologia) nascem das experiências terrenas com os outros. 
Sua filosofia está presente na concepção do discurso sobre Deus que se manifesta na ética da alteridade, destaca o pensamento de Lévinas que a melhor forma de agir conforme a ética é manifestar a importância real da relação do homem com o outro (seu semelhante). Neste aspecto, Lévinas ressalta a importância da figura do eu, que possui identidade como conteúdo, assim seu existir consiste em identificar-se no mundo, conceituando sua trajetória a partir do seu coexistir com os demais indivíduos. 
A filosofia da alteridade baseada no filósofo franco-lituano parte da subjetividade, propõe que sua categorização esteja intimamente associada a dimensão política. Essa construção de base política é representada pelo lugar de convivência com o Outro, reconhecendo neste alguém, alguns meios para compartilhar conhecimentos, experiências, inquietações e mobilizações em relação a vida em comum. Já afirmou o filósofo Aristóteles na Antiguidade Clássica, que o homem é um ser político, sendo os homens capazes de tornarem-se justos, por meio do exercício da virtude e da justiça. 
Para a filosofia da alteridade, o outro é o início do filosofar e o princípio do exercício da ética, fundamentado pela razão, além do sentido do existir humano e a possibilidade de concretização da justiça e da paz. Nestes termos, aquilo que conduz ao conhecimento é o agir com justiça, no qual ética e filosofia estão intimamente relacionados como peças fundamentais para efetivação do conhecimento humano. 
Lévinas propõe metaforicamente que conhecer-se é um exercício que pressupõe o Outro, uma atividade de realização imanente, que envolve a subjetividade e a exterioridade do sujeito. Segundo ele, o Outro se revela na metáfora do rosto, que se revela para mim. O rosto não se reduz a plasticidade (física) de alguém, se concretiza em toda figura do Outro, imagina não apenas uma face humana representada na figuração do conjunto de uma entidade humana, que vai além de um rosto, representa um rosto como alteridade do Outro, uma transcendência que é expressão infinita. Ao falar do rosto de Outro, se fala a partir de um eu. Daí, portanto, o Outro que se revela sou eu mesmo diante do espelho.
E qual de nós, ousaria não se olhar diante do espelho? 


 Trecho do livro: EUFRASIO, Marcelo Alves P. Descobrindo o belo onde o sol brilha para todos: educação em Direitos Humanos (2015).  [no prelo]

sábado, 15 de agosto de 2015

Ainda há esperanças para juventude



Têm sido difundido pelo aparelho midiático e nas relações sociais (novelas, músicas, esportes, partidos políticos etc.) que o lugar da juventude é marcado pela aventura, transgressão, rebeldia, sonhos e paixões. Já faz algumas décadas que as novelas televisivas insistem neste protótipo metamorfoseado. Desde a Antiguidade, os jovens do sexo masculino se colocavam como protagonistas nestes papéis sociais “juvenis” de rituais de passagem, conforme ocorria na sociedade romana sob a égide do pater familiae. E assim, nossas instituições mais tradicionais passaram a conviver com os gritos de guerra, as gírias, as roupas transadas, estilos alternativos das tribais juvenis, tornando-os como que sociedades secretas. 
No Brasil, a segunda metade do séc. XX é marcado pelos movimentos juvenis e pelas reivindicações populares pela democracia, mas o discurso da vulnerabilidade juvenil foi gradativamente afirmado a partir da inexperiência e imaturidade, que ainda hoje por vezes é confundido exclusivamente com hipossuficiência. Ainda que muitos grupos ou personagens juvenis deem provas de suas iniciativas e desbravamentos honrosos, nossa sociedade reforça a imagem da insegurança, como sendo o jovem promotor da violência (agente passivo ou ativo), ou melhor, laboratório para as estatísticas de vitimização da violência urbana, ou sendo ele, desprovido de oportunidade para assumir uma jornada laboral, quando em diferentes situações é cobrada a experiência profissional.

Na teoria sociológica de Pierre Bourdieu (1930-2002), é possível encontrar uma analise estrutural sobre a questão da juventude. Ao ponto que perguntaram ao sociólogo francês:

“Como o sociólogo aborda o problema dos jovens? - O reflexo profissional do sociólogo é lembrar que as divisões entre as idades são arbitrárias. É o paradoxo de Pareto dizendo que não se sabe em que idade começa a velhice, como não se sabe onde começa a riqueza. De fato, a fronteira entre a juventude e a velhice é um objeto de disputas em todas as sociedades(BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983. p. 112).

Em 2013 tive oportunidade de fazer uma modesta análise na Revista Sociologia sobre a juventude no Brasil a partir da teoria de Bourdieu, naquela oportunidade destaquei os importantes acontecimentos, transformações e conquistas (Secretaria nacional da Juventude, Estatuto da Juventude, Campanha da Fraternidade, Jornada Mundial da Juventude etc.) na juventude brasileira, mostrando que o maior desafio que se avizinha continua sendo de conquistar espaços sociais autênticos, sem que, se percam os referenciais de dignidade humana. Afinal, se gradativamente foram sendo esquecidos de solidificar os instrumentos que poderiam orientá-los em caminhos saudáveis para o corpo e a alma, a chama do espírito juvenil não pode apagar-se. Ou, como afirmou certa vez Dom Hélder Câmara: “O segredo para ser e permanecer sempre jovem, mesmo quando o peso dos anos castiga o corpo, o segredo da eterna juventude da alma, é ter uma causa a dedicar a vida” (Devocionário para Juventude. São Paulo: Loyola, 2004).



Segue abaixo um trecho do texto da revista