segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Parada (mudança) entre 2013/2014

Parada (mudança) entre 2013/2014


Apesar das adversidades e dos fenômenos controversos encontrados nesta Era de profundas mudanças vivenciada por todos nós, é preciso não perder as esperanças em uma vida feliz. Conforme o poeta e filósofo francês Jacques Prévert: "É preciso tentar ser feliz, nem que seja apenas para dar o exemplo".

Antes de criar expectativas em relação ao Ano Novo, vale a pena assistir e introjectar a mensagem acima como reflexão para 2014!

FELIZ ANO NOVO! 


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Do Welfare State à busca pela felicidade: o sonho de um Natal Feliz






O livro que ganhei de minha cunhada e de seu esposo no último mês de outubro, intitulado FELICIDADE, de autoria do sociólogo dinamarquês Bent Greve é uma excelente obra para leitura e reflexão sobre a sociedade de consumo, principalmente em função de sua tese central remeter-se acerca da compreensão do conceito de "felicidade", a luz de um certo saudosismo pela intervenção do poder governamental na elaboração de políticas públicas eficazes nas sociedades contemporâneas.

Numa época em que o capitalismo global não prima pelo modelo do Welfare State, como motor da tutela das necessidades sociais da população, nem nos países centrais e nem muito menos nos países periféricos, o sociólogo Greve levanta um debate sobre o modelo de sociedade que eclodiu a partir do crack de 2008, que apareceu associado às crises cíclicas do capitalismo, aos fenômenos como individualismo, desemprego, insegurança, esfacelamento dos valores, crises institucionais etc.

Na busca pelo paradigma ideal de "felicidade" para as sociedades contemporâneas, mesmo diante da complexidade de identificação de um modelo de felicidade individual, são apontados elementos importantes para identificá-la, renda, confiabilidade no governo, segurança, saúde e relacionamentos pessoais sólidos são fatores importantes para considerar, mas também inúmeros elementos subjetivos ajudam a compor a inexplicável equação da felicidade. Assim, a felicidade coletiva e individual não deve restringir-se ao Produto Interno Bruto - PIB como mediador da felicidade (equação da sociedade capitalista), pois segundo aquele sociólogo esse caminho de mensuração se mostra ineficiente. É preciso considerar vários outros subsídios para estabelecer um paradigma saudável e harmônico, que estão relacionados a alguns elementos subjetivos do cotidiano que podem ser vivenciados alternativamente, como, por exemplo: "o incremento do autoconhecimento, a possibilidade de se fazer trabalho voluntário, a simples visão de mais policiais na rua e até mesmo o sentimento de pertencer a uma massa, mesmo que seja a dos desempregados, todos esses elementos podem levar o individuo a se sentir mais feliz" (GREVE, 2013, p. 37).

Com foco nos contextos da Europa e nos Estados Unidos, a obra examina como o conceito de felicidade pode contribuir para a compreensão de aspectos centrais da sociedade atual, investigando desde questões relacionadas à análise do Estado do bem estar social até o cotidiano das pessoas. Ao propor diferentes abordagens sobre a categorização e os usos acerca do conceito de felicidade, Greve tem por objetivo oferecer subsídios para uma melhor compreensão sobre as situações que envolvem o termo em questão, principalmente quando tem impactado nas sociedades os motivos que tornam as experiências de vida boas oportunidades para se viver feliz.

Defende Greve (2013) que a felicidade pode se relacionar ao desejo de consumo, isto é, economicamente quando o ter faz sentido para tudo, ou ainda e mais amplamente quando associado a essência do ser, que pode está relacionado com os desejos subjetivos e o estado de espírito de uma pessoa, um momento ou diferentes momentos da vida, que podem repercutir pela vida toda.




Neste caso, é preciso garantir uma melhoria substancial dos usos e interpretações acerca do nível de felicidade, conforme defende:


"[...] Bem estar pode ser descrito como possuir riqueza econômica suficiente, o que torna possível a aquisição de uma vasta variedade de bens e serviços. Bem estar, nesse sentido, tem principalmente um fundo econômico, baseado na ideia de que o benefício que indivíduos retiram de um bem ou serviço é crucial para se entender o que é bem-estar. [...] No entanto, felicidade pode ser entendida , então, como um termo amplo que é experimentado individualmente e tem fundamento, mas que, a partir das experiências é certamente possível medi-lo e alcançar um claro entendimento dele, mesmo no nível da comunidade. Felicidade é, portanto, definida como a percepção que cada pessoa tem de sua vida no passado e no presente e de suas expectativas para o futuro. Há diferença entre o momento de felicidade (por exemplo, ganhar na loteria) e uma felicidade mais duradoura. [...] A felicidade varia no decorrer da vida, e um momento de felicidade pode ser importante para se compreender a vida toda" (GREVE, 2013, p. 68-69;76).


E acrescenta:


"Um alto nível de felicidade para indivíduos e também grupos de pessoas é visto como ideal para se tentar alcançar uma boa sociedade. A boa sociedade é também uma comunidade feliz, e podem-se buscar ações públicas que propiciem alcançar e continuar alcançando uma sociedade feliz, ou ainda mais feliz.


[...] mesmo que uma pessoa tenha sofrido um acidente, ficado doente ou perdido o cônjuge [...] é possível retornar ao nível anterior, ou pelo menos próximo dele, e também refletir sobre a felicidade no decorrer da vida" (GREVE, 2013, p. 179;183).

Numa época atual do ano em que a cultura cristã se aflora mediante o carisma, a fraternidade e a religiosidade, inspirados pela natividade cristã, as reflexões de Bent Greve são oportunas no sentido de provocar os leitores para buscar a médio e longo prazos um modelo de sociedade mais humanista, principalmente ao pensar diferentes aspectos relacionados à felicidade, seja na busca por uma qualidade de vida saudável (exorcizando "o viver para trabalhar" cujo objetivo é o consumismo desenfreado), ou ainda substituindo o valor do ter pela essência do ser ("trabalhar para viver").

Desejo a todos os amigos (as) um verdadeiro Natal de/com muitas experiências felizes, e que esta reflexão inspire cada dia do Novo Ano, principalmente nos distanciando das lições efêmeras.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Sobre a violência urbana em Campina Grande, o passado não ilumina o presente!





Sobre a violência urbana em Campina Grande-PB, o passado não se repete. Se nos últimos meses o cenário urbano das cidades paraibanas, particularmente a Rainha da Borborema tem sido perpassado por um conjunto de atividades criminosas que assolam a população campinense, e diametralmente a vítima em potencial tem sido a classe média, devemos lembrar que tal problemática ligada a violência urbana já ocorria nas periferias e bairros distantes da região central da cidade, em decorrência do tráfico de drogas e de uma série de atividades delituosas praticadas por marginais milicianos da periferia, como o toque de recolher, assaltos a ônibus, assassinatos e roubos "só" assolavam e traziam medo aos indivíduos postos à margem da sociedade, nas periferias, o problema da violência ainda não era de utilidade pública e nem "epidemia social" na capital do forró.



Arrastões, assaltos, ameaças, assassinatos (até a última sexta-feira 13 de dezembro, as estatísticas contavam 174 homicídios na cidade), medo e incertezas, um conjunto de ações criminosas que geraram o terror e o confinamento de famílias em suas residências passou a atingir diferentes camadas sociais. Induzidos pelo vício das drogas e pelo desejo de subtrair os bens do outro, os criminosos experimentaram invadir a "cidade", esta não oferecendo resistência, abriu suas portas para a criminalidade sem precedentes. Diante da omissão do aparelho coercitivo do Estado, da ausência de políticas governamentais de segurança pública, de melhoria da qualidade de vida da população carente, da carência de um aparelho estatal cidadão e democrático, a própria sociedade procura responder com diferentes inconformismos, com ignorância, saudosismo, "apologia ao crime" (fazer justiça com as próprias mãos), mercantilização do protesto silencioso (vender camisas em prol do saudosismo da classe média que deseja a paz novamente) entre outras tantas correntes e bandeiras proclamadas nas praças timidamente ou nas redes sociais.



É louvável a indignação, o inconformismo e o desejo veemente de um aparelho governamental que ofereça condições do cidadão comum ir e vir, ter segurança, mas algumas posturas do individuo emotivamente influenciado e inconformado com o cenário atual não merecem crédito, principalmente numa sociedade que se arvora do direito de intitular-se democraticamente "consolidada". Aos que têm saudosismo ou que reivindicam pelo sabor da ignorância o retorno de um tipo de grupo de extermínio nos moldes do MÃO BRANCA, lembrem-se que numa sociedade que busca o justo, o bom senso deve prevalecer intrinsecamente como condição de caráter, como defendeu o filósofo Aristóteles, na sua Ética à Nicômaco "disposição de caráter que torna as pessoas propensas a fazer o que é justo, que as faz agir justamente e a desejar o que é justo". Afinal, aos que condenam sem um justo julgamento ou almejam "fazer justiça com as próprias mãos" nesta causa diria Jesus: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lucas 23:34).



O documentário abaixo ilustra aspectos do real sentido deste Grupo de Extermínio que existiu em Campina Grande entre 1978 e 1982, o Mão Branca não é um movimento armado típico do contexto atual, por isso, aos saudosistas vale lembrá-los que a historicidade não se repete nos mesmos termos e conjunturas atuais. Os milicianos de hoje não se alimentam do sentimento de "caudilhismo travestido do manto da justiça", mas de um conjunto de interesses difusos. Afinal, o tráfico de drogas de hoje em Campina Grande não é o mesmo da década de 1980, nem o policial naquela época fazia "bico" como segurança particular ou como moto taxi para complementar sua renda. Influenciado pelos grupos de extermínio das décadas de 1960-1970 do eixo Rio - São Paulo, o Mão Branca aparece historicamente marcado pela ideologia da Segurança Nacional, normativamente sob os auspícios do Decreto-Lei de 1969, vigente durante o período ditatorial, pelo qual as polícias adquiriram competência para executar "os suspeitos e os criminosos" com exclusividade, sem a práxis do princípio do contraditório e da ampla defesa (audiatur et altera pars, isto é, “ouça-se também a outra parte” - Art. 5° LV da Constituição Federal de 1988).


Essa "legalização" de fazer justiça com as próprias mãos, remete a criação dos decretos de promoção por bravura na Polícia Militar, bem como na política da Política Civil a partir de 1964. Leia-se à época: "matar bandido merece condecoração/promoção". A violência criminal acabou justificando ou influenciando a criação dos esquadrões da morte na Polícia Civil no final da década de 1960 e décadas seguintes. O saudosismo de parte da população para o retorno de esquadrões da morte, como forma de "limpeza criminal" é evidencia do vazio político sobre temas estruturais, os quais ainda são subsidiados por políticas de governo metamorfoseados de proselitismo.


 Documentário que instiga a reflexão sobre o MÃO BRANCA: http://vimeo.com/67347909

domingo, 24 de novembro de 2013

I have dream (about my mother)




Fazem algumas luas que me encontro carregado de saudade,
as mãos e pês calejados me trazem uma icônica lembrança,
do consolo nos braços maternos, nas tardes cinzentas de outono.
Ao trazer da memória essa lembrança, desfalecem algumas das minhas crenças e a dor calcina. Mas, no coração repleto de esperança, anseio pelo prelúdio de um pôr do sol celeste, restando-me um sopro de vida e as lições legadas por minha amada mãe.

E, se a saudade demarca seu território em cada primavera,
os sonhos que tenho são a marca indelével de minhas lembranças,
sabendo que a presença eterna de minha mãe, se fortalece nos braços de minha família.


Uma música para acompanhar a leitura do poema acima, recomendo Richard Clayderman no piano com "I have a dream": http://www.youtube.com/watch?v=mVXWMmiTTE0


(Por Marcelo Eufrásio, pelo aniversário da páscoa de sua mãezinha)

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A DIFÍCIL ARTE DE SE LIBERTAR DO FACEBOOK

Usualmente as redes sociais, como, por exemplo, a ferramenta "Facebook" tem encurtado distâncias, em grande medida agilizado a sociedade informacional, por outro lado, desperta curiosidades e outros sentimentos de quem anseia pela vigilância "da vida alheia", como se o ente do outro lado quisesse provocar seus "contatos virtuais" fazendo crer que a vida "pós-moderna" se resume a divulgar (publicidade) aquilo que se come, que se veste ou o registro do seu mais recente troféu. O lema atual, é proibido privar, é cafona ter privacidade, a publicidade deve se sacralizar. Será que em 2004 quando Mark Zuckerberg criou esta rede social vislumbrava tantas intempéries e intenções periféricas? Triste fim da humanidade para os contemporâneos, resumi-la ao frenético mundo virtual que se metamorfoseia em diferentes sentidos e vozes que desejam ver o gênero humano se reconhecer nas suas incontinências. Instigante e tentador se inserir no mundo virtual e em tempo real a partir do cotidiano e dos desejos não realizados, mostrando ao mundo que existimos, fazendo do nosso mundo um "reality show", inclusive nos fazendo pensar que nas redes sociais todos os indivíduos são reconhecidos, lembrados e se tornam importantes, mesmo que seja apenas virtualmente. A sociedade virtual está formando o indivíduo "escravo" de sua própria condição, que, neste caso, não vive, não ama e nem pensa, não dorme, não estuda, não lê, não constrói seu lazer, não é livre, logo não existe, apenas vegeta sob as luzes da ribalta virtual. Influenciado por uma rede de novos códigos cotidianamente, o individuo está condicionado ao "outro" que também está conectado, mesmo que este outro não tenha nome, não tenha rosto e não se identifique, mas lhe sacie a fome de "existir". Até as religiões se tornaram "escravas" deste pacto virtual, os santos estão todos de joelhos, quando o catecismo tem como ferramenta o marketing. "A existência que precede a essência", como teorizou o filósofo francês Jean-Paul Sartre, não é neste caso reconhecida integralmente. O problema é que o homem virtual "pós-moderno" não está condenado a ser livre, mas se tornar escravo de suas vaidades e da efemeridade. E busca reconhecer-se enquanto existente em relações que lhe distanciam do outro, desejando que o mundo virtual responda e informe aos outros conectados: "quem sou, como vivo, o que faço, como penso, com quem me relaciono, como me relaciono etc." Um problema que está no epicentro da transição entre moderno - "pós-moderno". Ao sujeito "conectado na sua rotina diária" que (ainda) não nasceu para ser livre, resta-lhe a prisão virtual sob as sutilezas de um novo panóptico, que impõe a vigilância sob os auspícios das ferramentas tecnológicas e comunicacionais, desbravando uma "sociedade disciplinar" aos moldes de uma vida "pós-moderna".

terça-feira, 30 de abril de 2013

E quando "deus está morto" na pós-modernidade





Decisão como esta do egrégio Tribunal de Justiça da Paraíba (ver notícia acima), remete as mudanças frenéticas que as formas de conceber o mundo moderno vem passado. A questão não é ser favorável ou contrário a união estável e/ou oficialização do casamento civil de pessoas do mesmo sexo, afinal o debate é polêmico e multifacetado. A questão se volta às transformações em ternos (pós) estruturais que as sociedades ocidentalizadas vem passado e que não estão dissociadas de valores e condutas morais concebidas desde o século XVI, passando a se redefinir gradativamente nos últimos séculos.

Presságios do fim dos tempos, também não. Na verdade, refere-se ao contexto do mundo moderno ou da racionalidade iluminista que concebeu as formas de moralidade que agora estão passando por uma "crise". Se na modernidade "deus" foi substituído pela razão, em termos científico-tecnológicos etc. Agora a razão se volta a uma nova instrumentalização. Nestes tempos, a fé novamente é ameaçada, não mais pela razão moderna. Nem o papa Bento XVI escapou das profecias do racionalismo made in pensamento nietzscheano. Afinal, desde 1882, na sua obra “A Gaia da Ciência” Nietzsche já tinha profetizado que “deus está morto”. Aliás sua profecia agora passa a ser revisitada como fórmula para entender as novas dinâmicas do século XXI, novas transformações virão para provocar os homens e as instituições.


Assim profetizou Nietzsche:

“O homem louco- ‘Não ouvistes falar daquele homem louco que, em plena manhã clara, acendeu o candeeiro, correu para o mercado e gritava incessantemente: Estou procurando Deus! Então como lá se reunissem justamente muitos daqueles que não acreditavam em Deus, provocou ele então grande gargalhada (...). O homem louco saltou em meio a eles e disse: nós o matamos, vós e eu! (...) Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! A grandeza desse feito não é demasiadamente grande para nós? Não teríamos que nos tronar, nós próprios, deuses, para apenas parecer dignos dele? ’” (In. _____. A Gaia da Ciência” (1882). Aforismo 125)

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Carnaval do centro à periferia made in Brazil




Depois de tanto tempo de celebração profana do “mundo de ponta cabeça” é chegado o momento de rememorar o(s) sentido (s) que acabou(ram) se diversificando ao longo do tempo, a festa carnavalesca, a festa mais quente do Ocidente, tão quente que pegou fogo quando chegou ao calor dos trópicos, invertendo os papéis. Afinal, ao celebrar 'carnavalis' no Brasil tudo pode, inclusive profanar, amoralizar e banalizar, “pois não existe pecado do lado de baixo da linha do Equador”. A festa da carne ou de adeus à carne desde os tempos medievais, algum tempo depois a Igreja convencionou o tempo de "contrição" na quaresma para "purgar os pecados da carne" praticados no carnaval.




Para pensar sobre as origens históricas da festa carnavalesca extraímos alguns fragmentos interpretativos sob a perspectiva da historiografia cultural (a partir da teoria histórica francesa da Terceira Geração dos Annales), que na verdade acabou traduzindo aquela festa profana como sendo de dois sentidos ou que tenha uma dualidade na percepção do mundo e da vida humana.

Mikhail Bakhtin em seu livro ‘A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento’ afirmou que “Os festejos de carnaval com todos os atos e ritos cômicos que a ele se ligaram, ocupavam um lugar muito importante na vida do homem medieval. [...] O riso acompanhava também as cerimônias e os ritos da vida cotidiana: assim, os “bufões” e os “bobos” assistiam sempre às funções do cerimonial sério, parodiando os seus atos (proclamação dos nomes dos vencedores dos torneios, cerimônia de entrega do direito de vassalagem, iniciação dos novos cavaleiros, etc.). Nenhuma festa se realizava sem a intervenção dos elementos de uma organização cômica, como por exemplo, a eleição de rainhas e reis “para rir” para o período da festividade. Todos esses ritos e espetáculos apresentavam uma diferença notável, uma diferença de princípio, poderíamos dizer, em relação às formas do culto e às cerimônias oficiais sérias da Igreja ou do Estado Feudal. Ofereciam uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferentes, deliberadamente não oficial, exterior à Igreja e ao Estado; pareciam ter construído, ao lado do mundo oficial, um segundo mundo e uma segunda vida aos quais homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporção, e nos quais eles viviam em ocasiões determinadas. Isso criava uma espécie de dualidade do mundo e cremos que, sem levá-las em consideração, não se poderia compreender nem a consciência cultural da Idade Média, nem a civilização renascentista. Ignorar ou subestimar o riso popular na Idade Média deforma também o quadro evolutivo histórico da cultura européia nos séculos seguintes. [...] A dualidade na percepção do mundo e da vida humana já existia no estágio anterior da civilização primitiva. No folclore dos povos primitivos encontrava-se paralelamente aos cultos sérios (por sua organização e seu tom) a existência de cultos cômicos, que convergiam as divindades em objetos de burla e blasfêmia (Riso Ritual); paralelamente aos mitos sérios, mitos cômicos e injuriosos, paralelamente aos heróis, seus sósias paróticos”.

Já para Peter Burke no livro ‘Cultura Popular na Idade Moderna’ acrescenta: “era uma representação do mundo virada de cabeça para baixo. O que é claro é que o carnaval era poliscênico, significando coisas diferentes para diferentes pessoas. Os sentidos cristãos foram sobrepostos ao pagãos, [...]. Os rituais transmitem simultaneamente mensagens sobre comida e sexo, religião e política. A bexiga de um bobo, por exemplo tem significados diversos, por ser uma bexiga associada aos órgãos sexuais, por vir de um porco, o animal do carnaval por excelência e por ter sido trazida por um bobo, cuja ‘fertilidade’ é simbolizado por ser vazia.”

Para Burke o carnaval popular da Idade Moderna na Europa era o momento da “inversão social”, uma festa inteligente em que os pobres poderiam vingar-se dos ricos, fantasiados poderia jogar ovos podres e espancar os nobres, xingar os políticos sem medo das conseqüências, na verdade, depois de um ano todo de subjugação da sociedade verticalizada e impositiva, era naquele momento "festivo e medonho" que as estruturas sociais se invertiam, se metamorfoseavam. Um mundo de ponta cabeça, dual, que acima de tudo revelava um momento ‘sagrado-profano’ para banalizar a vida pública em detrimento dos costumes e interesses privados.

Depois de tanto tempo, vendo os sentidos cômico, satírico e irônico das festas carnavalescas se perderem entre as vielas da contemporaneidade, o  carnaval do centro passou a ter uma conotação mercadológica (dos blocos e camarotes elitizados), esvaziando os sentidos históricos que se perdem nas noites dos tempos. Por outro lado, no carnaval periférico nasceram as manifestas por uma rica diversidade, muito embora empobrecidas de sentidos simbólicos em alguns momentos. 

O principal elemento "sagrado" do carnaval é o riso. A expressão do riso com toda sua carga semiótica dos tempos medievais e modernos é se permutou quando pensando a luz do cotidiano. Humberto Eco no seu livro (e depois filme) "O Nome da Rosa" lembrou, satirizando com seu estilo irônico e mordaz a escolástica feudal o valor do "riso" (é proibido rir no mosteiro, motivo para os assassinatos).

No centro da festa é tempo de esvaziamento de sentidos nas festas carnavalescas elitizadas, até parece que foram banalizados os rituais carnavalescos do riso e da ironia, principalmente, em louvor do espetáculo "sem brilho" do carnaval made in televisão brasileira, esvaziando sentidos, resumindo as festas pejorativamente e de maneira apelativa ao consumo exacerbado. No sistema periférico do carnaval a diversidade e o colorido das festas carnavalescas atuais "pode" ser rica de expressividade quando abarca muitos sentidos e símbolos da espontaneidade do povo, principalmente quando perpassado pela simbólica inversão social. A festa é uma oportunidade de expressar a diversidade cultural, mais também de desmoralizar os "costumes comuns", os poderes instituídos ou as vergonhas nacionais. No carnaval o pecado está na conformação, festejar o óbvio ou apenas a carne não é carnaval (carnavalis).


Na periferia da festa, o sagrado e o profano se unem para expressar a identidade de um povo e as cores da alegria e da devoção ao carnaval. É momento de expressar a identidade de um povo simbolizando de onde este povo carnavalesco vêm (das classes de baixo, democratizando os espaços):



portela
é a deusa do samba, o passado revela
e tem a velha guarda como sentinela
e é por isso que eu ouço essa voz que me chama 
portela
sobre a tua bandeira, esse divino manto
tua águia altaneira é o espírito santo
no templo do samba


as pastoras e os pastores

vêm chegando da cidade, da favela
para defender as tuas cores
como fiéis na santa missa da capela

salve o samba, salve a santa, salve ela
salve o manto azul e branco da portela
desfilando triunfal sobre o altar do carnaval (Portela na Avenida - Clara Nunes) 


Para o carnaval dos trópicos "não existe pecado do lado de baixo da linha do Equador" e também poderia ser perpassado pela riqueza de sentidos de um mundo construído de ponta cabeça, principalmente quando o carnaval é construído entre dois mundos, o "centro e a periferia" carnavalescas.







domingo, 20 de janeiro de 2013

O que o Brasil quer ser quando crescer?



Um livro interessante sobre a realidade educacional no Brasil, com seus devidos descontos é claro, mas expressivo nos dados apontados sobre essa problemática atual, é "O que o Brasil quer ser quando crescer?" do jornalista Gustavo loschpe.





Não se trata de uma obra acadêmica com os devidos fundamentos e rigor teórico-científicos, mas uma leitura crítica baseada em dados estatísticos e jornalísticos sobre a conjuntura política e educacional do ensino, dos professores e da escola no Brasil. 

Numa breve resenha da Revista Veja ficam as seguintes impressões sobre o texto: (com o cuidado merecido aos textos da impressa oficiosa) "No livro - que reúne 34 artigos publicados em VEJA entre 2006 e 2012 -, Ioschpe se vale de um arsenal de pesquisas e de uma argumentação coerente para desconstruir um a um os mitos que pairam como uma camisa de força sobre o ensino brasileiro. Um deles diz respeito à escassez de dinheiro para a educação - a raiz de nossos males, diria a esmagadora maioria. Pois os números apresentados por Ioschpe demonstram que o Brasil despende para a sala de aula quase tanto quanto o clube dos países mais desenvolvidos da OCDE (5,7% em relação ao PIB nós X 5,8% eles, se comparados os gastos públicos). Mas só se o investimento subir será possível dar o grande salto de que precisamos, muitos ainda insistiriam. Talvez não saibam que, mesmo quando países como China e Coreia do Sul se lançavam em sua exitosa corrida rumo à excelência, não excederam os atuais gastos brasileiros. E, ainda que o Brasil destine mais dinheiro à área, como está previsto, não há garantia de sucesso, alerta Ioschpe. Na última década, o país foi vice-campeão em aumento de recursos para a educação, mas continuou na rabeira do ensino. Os reajustes no salário dos professores tampouco se traduziram em avanços relevantes na sala de aula - nem mesmo nas escolas particulares. Um dos artigos expõe um dado que derruba a crença de que elas são um oásis de bom ensino: os alunos mais ricos do Brasil têm desempenho pior do que os mais pobres dos países que estão no topo.

Não há nada de mirabolante nem de tão dispendioso nas saídas sugeridas por Ioschpe. Trata-se, antes de tudo, de uma mudança de mentalidade - a começar pelos cursos de pedagogia, que preferem perder-se em teorias obsoletas a ensinar aos futuros mestres estratégias para a sala de aula. A experiência internacional indica que os caminhos para o êxito acadêmico passam pelo mais básico: metas de aprendizado, dever de casa, meritocracia. Foi assim que a China alçou seus alunos ao pódio da educação mundial, como mostra um capítulo em que Ioschpe conta o que viu em sua investigação in loco".

Confesso que não é um livro que deva ser um dos marcos referenciais de um trabalho acadêmico, todavia é rico em informações e comparações para entender a conjuntura educacional de boa parte dos países, a exemplo do Brasil, que não elegeram a equidade nas dimensões mais importantes da vida social como prioridades. Sua leitura, no entanto, é agradável e leve, própria de um texto jornalístico e informativo. 

Conforme venho expressando a partir de minhas leituras e pesquisas para meus textos da tese, a educação no Brasil se constituiu num processo tardio e marginal, por uma série de questões, como, por exemplo, as políticas públicas educacionais direcionadas à juventude, mais particularmente no contexto da relação entre trabalho e educação, nunca tiveram um caráter emancipatório no sentido de propor uma formação integral, que não estivesse apenas direcionado a oferecer formas precárias de inserção destes no mercado de trabalho. A educação (formal) no país procurou até a metade do século XX responder as necessidades eleitorais (acesso ao voto) e de trabalho (precário) na sociedade fabril que se iniciava. E numa conjuntura não muito distante após o processo de redemocratização as políticas governamentais passaram a inserir medidas políticas e educacionais em função de um quadro social de altas taxas de desemprego juvenil e de precariedade das ocupações produtivas atualmente disponíveis para os jovens. Ou seja, tem predominado oficialmente uma educação compensatória que predomina como meta a "aceleração do ensino básico" para aqueles que não tiveram oportunidade  de estudar na época devida e precisam de inserção na lógica da empregabilidade (formal ou informal), o que tem reproduzido um ciclo vicioso no processo político e educacional em função da preocupação por parte do Governo e da sociedade civil em reproduzir a funcionalidade do quantitativo de certificados e diplomas de qualidade duvidosa. Como se a formação educacional de um indivíduo se resumisse única e exclusivamente a um certificado de ensino básico ou superior, desprovido de todo capital cultural que a família, os meios de comunicação, as formas de entretenimento e as relações de sociabilidade insistem em não promover suficientemente. 

Se há uma tese pelo fim do trabalho, há uma outra pelo fim da educação integral. 

Ou como profetizou o sociólogo francês Bourdieu "[...] não basta ter por fim a democratização real do ensino. Na ausência de uma pedagogia racional capaz de neutralizar metódica e continuamente, da escola maternal à universidade, a ação dos fatores sociais de desigualdade cultural, a vontade política de dar a todos chances iguais diante do ensino só consegue triunfar sobre a desigualdade caso se arme de todos os meios institucionais e econômicos" (Les Héritiers: les étudiants et la culture. Paris: Les Éditions de Minuit, 1985. p. 114). 



Apresentação do livro baseado em vídeo: http://veja.abril.com.br/blog/imperdivel/livros/o-que-o-brasil-quer-ser-quando-crescer/

Aqui um dos textos encontrados no livro sobre a experiência educacional chinesa, sem muito investimentos, mas que tem trazido bons resultados nos últimos anos: http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/o-que-o-brasil-quer-ser-quando-crescer


domingo, 6 de janeiro de 2013

Pra dizer sim à vida!


"Copo vazio nas mãos quando a água faltar
Águas que invadem a terra buscando um lugar
Verde que o fogo avermelha tornando cinza o chão
Guarás, flores, suçuaranas, a vida em extinção
Vozes vão interpretar uma nova canção
Canção que derrame na terra sementes de paz
Que seja capaz de alterar e mudar a direção
Dos ventos que trazem a sombra
Que assusta e ofusca a criação
Pra dizer sim à vida
Nós juntamos nosso canto
Convidamos outros tantos
Pra que a voz a este clamor possam emprestar
Pra dizer sim à vida
Não importa quem sejamos
Só importa o que buscamos
A herança que aos filhos vai ficar
Pra dizer sim à vida
Pra fazer tudo de novo
Pois a dor que dói no mundo
Já não pode esperar
Pra dizer sim à vida
Sim ao novo que virá
O motivo que nos move
E faz a voz não se cansar
Pra dizer sim à vida
Nós cruzamos as fronteiras
Nos tornamos iguais
Pra dizer sim à vida"  (Sim à Vida -  Pe. Fábio de Melo)