sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Descobrindo o belo onde o Sol brilha para todos - Educação em Direitos Humanos





Para os estudiosos e simpatizantes do humanismo, acaba de ser lançado nosso novo livro, intitulado “Descobrindo o belo onde o Sol brilha para todos” - uma sólida mostra das experiências de uma extensão universitária, embasada no revisionismo teórico e nas reflexões sobre a Lei 10.216/2001, sobretudo sedimentado no terreno fértil da práxis cristã, para promoção da Educação em Direitos Humanos. Nasceu do espírito aguerrido contra a dependência química que ecoa no lugar social chamado Fazenda do Sol, sobretudo daqueles que constroem sua historicidade a partir da condição do Outro, como assevera o filósofo Emmanuel Lévinas. Este é um livro que se materializou sob a égide dos Direitos Humanos de terceira dimensão, trata-se de uma reflexão pautada nos direitos de solidariedade e fraternidade. O prefácio contou com a colaboração de Sergio Leite.


Poderá ser adquirido em breve na Livraria das Comunidades (por trás da Catedral Diocesana de Campina Grande), no Portal da Editora Protexto e com o autor.  

Um trabalho que nasce com o brilho e encantamento das duas mulheres que me inspiram todos os dias, minha esposa e minha filha, dedico a vocês!

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Algumas considerações sobre a condição da mulher enquanto "coisa"






        A sociedade de mercado reiterada e sob diferentes maneiras tem insistido na ideia de coisificação do gênero humano, sobretudo a figura do feminino. As mulheres em sociedades marcadas pelo patrimonialismo (propriedade privada) se configuram como principais vítimas, não nos deixa enganar as pesquisas de Engels na segunda metade do séc. XIX.
          Esses dias relendo um trabalho que orientei a produção da pesquisa faz alguns poucos anos, me deparei com um texto instigante e reflexivo para os moldes que estamos acostumados a encontrar na academia (jurídica), muito embora o tema seja um tanto insistente e mereça sê-lo, referente a violência contra a mulher. A pesquisa tratou da produção musical no Brasil que embora intensa e diversificada, trazendo ritmos e letras que agradam aos mais variados gostos musicais e estilos, passa por diversos tipos de informações ao seu público. O variado gosto musical do povo faz com que muitos gostem do forró eletrônico, ritmo dançante que leva milhares de pessoas aos shows e compra de suas produções.
            No entanto, muitas letras presentes nas músicas deste estilo musical possuem mensagens ofensivas às mulheres, capazes de violar a dignidade da pessoa humana em particular às mulheres. A pesquisa de Larissa Assis visou estudar essas mensagens depreciativas nas músicas de forró eletrônico.
 Analisou a pesquisadora Larissa, letras como:

"Meu primeiro namorado foi você / Sete dias depois já me fez mulher / Em seguida disse que não me queria / Me senti menina e também mulher / Fiquei sozinha guardando meus segredos, se minha mãe descobrir será meu fim / Minha vida já não é como era antes, o meu corpo já começa a transformar / Arrumei uma viagem pra fugir / Pois minha mãe já começou desconfiar / Do meu jeito, do meu modo de vestir / Tem hora que já não dá mais pra segurar / Se tiver me escutando por favor / Arruma um jeitinho e vem me ver / Eu estou aqui desesperada / Minha vida já não é nada sem você" (2011).

         Este forró mostra a mulher como um objeto descartado na primeira oportunidade depois que o homem a utiliza como objeto de satisfação sexual. Existe o abandono afetivo da namorada pelo namorado, fato que a deixa desamparada e desesperada em busca do homem que ela ama. O sentimento de abandono é notório, destacava a pesquisadora. E acrescentava em sua análise: “a dignidade da pessoa humana, como valor respaldado pelo jusnaturalismo, bem como princípio resguardado no início de nossa Constituição Federal, no art. 1º III, assegura a vida digna para toda a população. Ainda observamos, na Declaração sobre a Eliminação da Discriminação contra a Mulher, Artigo 1º, que a discriminação contra a mulher, porque nega ou limita sua igualdade de direitos com o homem, é fundamentalmente injusta e constitui uma ofensa à dignidade humana”.
        Alerta o sociólogo francês Bourdieu que embora o gosto e as práticas de cultura de cada um de nós são resultados de um feixe de condições específicas de socialização, é na história das experiências de vida dos grupos e dos indivíduos que podemos apreender a composição de gosto e compreender as vantagens e desvantagens materiais e simbólicas que assumem. O problema é que as formas mais dissimuladas e vantajosas de consumo, sustentadas pela industria eletrônica e musical absolvem o público, em detrimento dos poucos meios de acesso e incentivo a composição de um capital cultural refinado faz com que grande parte da população se entregue ao mercado do entretenimento fácil e desumano.  
        Para incrementar a "coisificação" outro dado preocupante que merece reflexão são os discursos da indústria da beleza. Recentemente (final de 2015) uma indústria de cosméticos nacional em busca de angariar consumidoras produziu um vídeo levantando a “tese” da autoestima das mulheres que estão em processo de divórcio. No vídeo veiculado nas emissoras de televisão, intitulado "A Linda Ex", aponta a todo tempo que o elixir para solução dos problemas femininos se encontra na simples transformação que se materializa na sofisticação das roupas e na maquilagem para aquelas que foram "abandonadas" pelos seus maridos, que nesta esteira já revela a fêmea possuída, desamparada e abandona, quanto aos homens, pelo menos dos que participam do comercial, uma leitura superficial nos moldes patrícios (pater familiae) da Roma antiga, os ex-maridos cansados do relacionamento comparam suas ex-esposas a “coisas” (res), leia-se carro, casa, anel, que perdem a graça (ou prazer da posse) depois de “usados”. Quando perguntadas sobre os motivos quem levaram ao término do relacionamento, às mulheres respondem: "acabou por um monte de coisinhas" ou "a gente virou sócio na criação dos filhos".

Link do vídeo comercial:  https://www.youtube.com/watch?v=8uh-qsMnCe4

     Além disso, ainda se constrói a falaciosa impressão de que a autoconfiança feminina se resume à estética (embelezamento). Motivando os leitores a questionar: e a velhice não chega, onde fica a cumplicidade, amor, companheirismo ... no relacionamento a dois?
     Depois de tantas lutas e tanto martírio, onde fica a tese de Simone de Beauvoir sobre “o segundo sexo” e a emancipação feminina nas sociedades contemporâneas?  Certamente o filósofo alemão Georg W. Friederich Hegel deve estar se contorcendo em seu túmulo, imaginando que os (pós) modernos não entenderam nada de “estética” e nem muito menos de beleza. Perguntaria Hegel demarcando na filosofia idealista duas categorias de belo: se existe diferença fundamental entre o belo da arte relacionado com a pureza do espírito e o belo natural condicionado a realidade da natureza, então, afinal, que tipo de belo é este construído pela indústria de cosméticos?
          Não ouso atribuir resposta neoplatônica ou neocostémica.