sábado, 30 de dezembro de 2017

TEMPO NOVO, VIDA NOVA?



E por falar em ano novo, quando o assunto é o tempo, nós humanos somos seres que almejamos o extraordinário, já afirmava o pré-socrático Heráclito de Éfeso. Precisamos cortejar a imaginação, dividir o tempo em estágios como se mil anos fosse uma vida, que pudesse ser nutrida por pensamentos em fagulhas de sonhos, como se cada período dividido em dias, meses e anos fossem degraus de uma grande escadaria que levasse ao porvir, alimentando as esperanças e afugentando a desilusão.

E se as coisas não dão por certas, lá vem mais um ano, como a metáfora de uma escadaria em que cada degrau é uma tentativa de experimentar a felicidade.

Se certezas ou não, o importante em cada escalada de um degrau a ser vencido é a possibilidade de apaziguar as inquietações diante do que a razão desconhece. Assim o é desde o prelúdio que abraçou com veemência o homo sapiens na primavera dos tempos. Desta constatação nascem algumas notas para bem acolher os dias que vem.

Se os tempos são líquidos, que cada instante não seja efusão do efêmero, mas a procura de viver na mais entusiasmada essência.

Se a vida revelar instantes de incerteza, o desejo de bem viver austeramente seja o mapa que conduza os dias.

Se o novo ano lhe traga inquietações, tranquilize a alma, encontre nas perguntas motivos de buscar intensamente as alegrias e a maturação em cada descoberta.

Tempo novo é assim, como um acorde para composição das melodias da vida, frutuoso como o anseio pela chegada da amada, palpitante como a contagem na espera de uma surpresa.

O importante é que os dias sejam esperançosos, inspiradores e reveladores como o suspiro incólume de cada degrau que se almeja chegar.  

Feliz Ano Novo a todos (as)!



Pintura: Naturaleza muerta - Carlos Pedraza Olguín (Chile)





terça-feira, 14 de novembro de 2017

La faim consomme des terres





Terra sem dono 
Povo no pano 
Gente de fome
Sistema consome 
Dono em luta
Atrás da disputa
Com forte, mordaz
Sem sorte, voraz
É o povo na terra
Que vive na serra
Na busca do chão
Pra fugir do sertão
Pois a fome consome 
Este povo sem nome (...)

Protege o filho diante da queda
A mãe fugindo da vida e da pedra
Ela sabe viver 
No viver e no sofrer
Na morte e na vida
Na vida partida
As cercas massacram
Os nobres arrasam 
Este povo de fome
Que a terra consome.


Marcelo Eufrásio (Fragmento do poema "La faim consomme des terres" ou "A fome consome a terra")

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Suite n° 1 e o desfecho de um semestre letivo






Dentre as seis suítes para violoncelo solo compostas por Johann Sebastian Bach entre o período de 1717-1723, Suite n° 1 - Preludio, é uma das mais encantadoras. Bach (1685-1750) compositor, cravista, regente, professor, violinista e violista, formou-se pelas bases do Sacro Império Romano-Germânico, atual Alemanha, praticou quase todos os gêneros musicais de sua época, exceto a ópera. Porém, sua obra prima e maior influência está nas formas populares do período Barroco. 

As suítes de Bach foram transcritas para numerosos instrumentos, entre eles, violino, viola, contrabaixo, piano, saxofone, clarinete, trompete, tuba entre outros, já na Suite n° 1, Prelúdio é um gênero musical introdutório de outra musicalidade maior, em grande medida uma ópera ou ballet. No contexto medieval, os músicos denominados de alaudistas tocavam como forma de aquecer, preparando a tonalidade, enquanto na escola bachiana, o Prelúdio é utilizado também como introdução de uma fuga ou tocata. 

Para encerrar uma semana de trabalho, após a mesura nas correções de projetos, tcc e provas, nada mais apropriado do que atentar aos encantos do Prelúdio, com toda sua leveza e floreio, que agraciam com um ritmo que resgata da memória as lembranças acadêmicas e estudantis dos tantos. Em escalas de sonhos, conteúdos, sorrisos e ebulição de expectativas marcados nos olhos atentos dos estudantes revelam-se algumas centenas de pequenos projetos desenhados nos semblantes entre salas, corredores e bibliotecas. 

Por vezes, estão eles, ora carregados por incertezas por vezes em perseverança, mais também sedimentados com a força, nutridos pela esperança ao moverem-se nestes últimos meses, como numa corrida pela incansável maratona da vida, projetando seus sonhos até conquistar mais um degrau em busca de uma vitória. 

E a prudência, a persistência e a força são os ritmos de um solo vespertino. Porque entre a Suite n° 1 de Bach e o desfecho de um semestre letivo, há bem mais harmonia do que imaginamos no tempo.

domingo, 16 de abril de 2017

A flor amarela




Cada vida que nasce é sinal indelével do amor e da criação divina, desde uma insípida bactéria que completa e harmoniza todo ecossistema até a natureza humana que se projeta para manifestar a expressão da equidade entre o sensível e o inteligível, que nasce, brota e dá sentidos à natureza.

A pequena semente que brotou no nosso jardim, e que minha pequena menina rega freqüentemente, desde que plantamos juntos faz alguns meses, ganhou um carinho especial neste Domingo (Pascal), a plantinha com suas pequenas folhas intensamente verdes recebeu do sol o brilho intenso para agraciar-nos com sua beleza, nos presenteando com sua flor intensamente amarela. Justamente para surpresa de quem adquire a semente sem saber a cor que serão as flores, o amarelo que significa luz, calor, otimismo e alegria, ao mesmo tempo, simboliza o sol, a prosperidade e a felicidade.

Nada mais esplendoroso como dádiva divina do que a vida, simbolizada no desabrochar do botão de uma flor.

A flor manifesta a graciosidade e beleza da vida que nasce e se transforma numa planta sem igual. Às vezes o sol a calcina, em outras a afaga. Nestes tempos raramente a chuva a castigava ou freqüentemente a menininha no oficio de jardineira faz o trabalho de regá-la na esperança pelo desabrochamento, cuidando, cativando e sublevando suas raízes na espera por sua espontânea beleza. Não raro à noite a envolve mansamente. Nunca a ouvi queixar-se por causa do calor ou do frio. Jamais cobra alguma coisa por sua majestática beleza. Nem o agradecimento. Ela se dá simplesmente. Gratuitamente. Não é menos majestosa quando o sol a acaricia de que quando o vento a açoita. Não cuida se a olha. Nem se incomoda se a galga. Ela é como Deus: tudo suporta; tudo sofre; tudo acolhe. Deus se comporta como ela. Por isso a plantinha com sua flor (amarela) é um sacramento de Deus: revela, recorda, aponta, reenvia.

O amor pelo outro e por aquilo que se faz gera fé na vida em plenitude. Feliz Páscoa!    

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Aria sulla quarta corda


Existem músicas que se eternizam pelo seu movimento, pelo teor simbólico e pelo encantamento melódico que possuem, penetram no mais intimo da alma, fazendo transcender nos tempos, simplesmente por sua profundidade tão íntima, transmitem vibrações que entoam notas aos sentimentos e a razão.

Porque simplesmente uma composição clássico é elixir para as agruras da vida!


"Aria sulla quarta corda" ou Ária da quarta corda é uma adaptação para violino e piano do segundo movimento da peça original que faz parte da Suíte nº 3 para orquestra, em Ré Maior, de Johann Sebastian Bach, BWV 1068, escrita para o Príncipe Leopoldo, entre 1717 e 1723. 

A peça "Aria Sulla corda" em especial, representa iconicamente uma melodia que guardo nas minhas lembranças desde a tenra idade. Memória dos domingos, quando o cheiro do café preparado por minha amada mãe se confundia com a radiofania dos "clássicos eternos" ou das fitas k7 com as peças de Bach e Mozart naquele clima de profundo engajamento em um momento de paz. 

Nesta semana de incisiva para oração, silêncio e contrição, as peças sacras de Bach nos levam a intima contemplação dos passos da via crucis e ao encontro do crucificado.