sábado, 25 de junho de 2011

Decreto Matinal



Um pequeno poema trazido das entranhas do ser, nestes tempos onde os sonhos se enamoram das tempestades. Neste caso, felizmente a calmaria nasce do encontro dos desejos e dos gestos felizes dos momentos marcantes e dos muitos lugares ... pois a felicidade é um estado de espírito!


DECRETO MATINAL

Fica decretado que não mais acordarei
que as notícias serão maduras
o sol não terá mais orgulho
e a verdade uma constante.
Aquele cinzeiro cheio de tocos abandonados
as vidas serão fustigadas
as ruas ameaçadas
as mulheres descabeladas
os homens moralizados.
Que este decreto viva
como os dias do agosto choroso.

(Marcelo Eµfrasıø)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Tensões políticas e culturais em Rê Bordosa













É com alegria que divulgo a publicação do livro do meu amigo e colega de doutorado Yuri Saladino, pesquisador, historiador e cientista social antenado com os muitos discursos simbólicos que nascem das entrelinhas dos espaços urbanos. Nesta publicação ele trata do universo político e cultural do personagem Rê Bordosa de Angeli. Quem tiver interesse na aquisição da obra: http://www.marcadefantasia.com/resenhas/livros/rebordosa.htm

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O trabalho de Angeli tem suscitado inúmeras investigações acadêmicas, o que confirma a importância de sua criação. Autor de incontáveis e marcantes personagens das tiras humorísticas brasileiras, foi com Rê Bordosa que Angeli criou um vínculo indissociável com seu público, a ponto de, mesmo tendo matado a personagem, ter que retomá-la, numa espécie de memorial ou diário.

O livro de Yuri Saladino, oriundo de sua dissertação de Mestrado, debruça-se sobre a obra de Angeli para estudar a construção artístico-cultural expressa nas histórias em quadrinhos de Rê Bordosa e, por meio delas, refletir sobre o projeto político e cultural do autor. Rê Bordosa surgiu em 4 de abril de 1984 na série de tiras em quadrinhos Chiclete com Banana, do jornal Folha de S. Paulo, tendo como cenário o universo urbano paulistano da década de 1980.

Para Yuri, a personagem é uma sátira sobre o gênero feminino pós-Revolução Sexual, que tinha como pano de fundo um ambiente social bastante efervescente em termos sócio-culturais. O universo “angeliano” do qual Rê Bordosa faz parte reflete sobre esse período, quando o debate entre a modernidade e a pós-modernidade estava na ordem do dia.

Yuri reforça que o cotidiano no qual a personagem se insere é marcado pela crise dos valores modernos e pela fragmentação das identidades culturais que refletia o deslocamento do sujeito moderno e a valorização do momento presente e do hedonismo. Nesse sentido, o estudo reflete em que medida e por qual direcionamento esta personagem, enquanto construção artístico-cultural, representou uma crítica social frente ao contexto dos anos 1980 no Brasil.
Como afirma o autor, a pesquisa discute o caráter crítico do projeto artístico de Angeli, bem como situa Rê Bordosa a partir dos seus diálogos, seu comportamento e seu modo de vida: “Procuraremos analisar a personagem Rê Bordosa como sendo uma problematização sobre esse contexto social e suas tensões culturais”, conclui Yuri.

H. Magalhães

terça-feira, 14 de junho de 2011

"Diálogo entre la razón y la fe" - Entre o Direito e a Religião, onde fica a ética?



O célebre encontro entre “BENEDICTO XVI & HABERMAS” - Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) e Jürgen Habermas em 2004, que culminou na publicação do livro "A dialética da secularização - sobre razão e religião" é de grande valia para entender a abordagem doa alemães, teólogo cardeal Ratzinger sobre os princípios que fundamentam a moral do Estado democrático e o filósofo Habermas sobre a questão da constituição dos espaços públicos e a possível dificuldade existente da unidade entre razão e religião para consagração dos direitos do homem (discussão já iniciada nas teses de Feuerbach e com Marx).

Claro que aqui não se trata de uma leitura densa, afinal num blog não se propõe um "tratado filosófico” (inclusive em função das minhas limitações), mas se constitui em rápidos comentários que procuram instigar os pensamentos do leitor. Como nas notas que seguem, a começar pela seguinte notícia:

Em 4 de mayo de 2005, o Jornal "La Nacion" anunciava:

Diálogo entre la razón y la fe - El Papa Benedicto XVI y el filósofo Habermas discuten dos visiones para abordar el mundo!

"El entonces cardenal Joseph Ratzinger, actual papa Benedicto XVI, y el filósofo Jürgen Habermas, profesor de la escuela de Francfort y padre del "patriotismo constitucional", celebraron el 19 de enero de 2004, en la Academia Católica de Baviera, en Munich, un diálogo sobre los fundamentos morales prepolíticos del Estado liberal, basándose en las fuentes de la razón y de la fe. Las diferentes posiciones de uno y otro respecto de las raíces de la legitimidad del Estado democrático pusieron de relieve la oposición entre revelación y razón. Aunque también mostraron coincidencias, como la necesidad de controlar, por medio de lo que Habermas califica como aprendizaje recíproco entre razón y fe, los peligros que la religión o la razón pueden acarrear a los derechos del hombre. LA NACION ofrece aquí los textos completos leídos por Habermas y Ratzinger en el memorable debate de Munich. Lo hace como oportuna contribución a una de las cuestiones fundamentales de la cultura en el tercer milenio". (Disponível em: http://www.lanacion.com.ar/704223)


A dialética enquanto categoria filosófica é tão polissêmica em sua carga conceitual e na sua empregabilidade contextual, que só procurando resumir a expressão a idéia de “contradição”; “complementaridade”, “mudança” etc. para entender o termo em sua riqueza conceitual, afinal há uma infinidade de pensadores da antiguidade à contemporaneidade que absolvem sua potencialidade. No entanto, no caso de Bento XVI e Habermas quando utilizam a dialética, eles nos propõem com a categoria hegeliana (filosofia idealista), que podemos retirar alguns aspectos essenciais para nossa reflexão acerca da razão e da religião, além da categoria que deve permear as duas, a questão ÉTICA (política).

Nos artigos que foram capitulados e publicados no livro “A dialética da secularização” – intitulados “Fundamentos morais pré-políticos de um Estado Liberal” (Joseph Ratzinger) e “Fundamentos Pré-Políticos do Estado de Direito Democrático” (Jürgen Habermas), os dois, um teólogo e o outro filósofo, apresentam a preocupação em conciliar os aspectos superestruturais antagônicos como diria a teoria marxista, sobre a razão e a religião. Apesar das posições antagônicas aqui vamos procurar uma conciliação teórica entre dois grandes ícones da intelectualidade na modernidade.

Este livro escrito a seis mãos, trata-se de uma critica a visão do mundo moderno e do “Estado ineficiente”, e tem como interlocutor nesse debate, outro filósofo alemão Böckenförde. Para entender o diálogo entre os pensadores e a necessidade da correlação entre razão e fé, os três apresentam um discurso no qual o Estado é visto como problemático em função de sua ineficiência, principalmente por conta da sua incapacidade em conservar os valores e pressupostos que o criou. Nestes termos, se pergunta se a religião teria o condão de trazer as garantias para sanar esse problema atual do modelo político, sendo possível, será que há condições de definir uma nova aliança entre razão e fé, como resposta ao conflito institucional que aparece nos modelos jurídicos atuais?

Para Habermas há condições para se estabelecer uma nova maneira de relacionar a razão e a fé, com o objetivo de sanar a imobilidade da razão moderna frente ao germe que o consome, por exemplo, os valores imorais que se encontram na política e no direito, fruto de uma razão corrompida. Sendo ele, a síntese da fé e da razão, construída pela filosofia agostiniana e tomista foi esquecida pela época moderna, que, por outro lado, soube apropriar-se criticamente da razão grega, mas não conservou os conhecimentos e os valores judaico-cristãos da salvação, que trazem a autenticidade das idéias sobre revelação e irmandade. Como solução para essa “crise” paradigmática de ausência dos valores patrísticos, aquele filósofo alemão procura resgatar as experiências cristãs dos primeiros séculos em sua historicidade para que a racionalidade secular re-encontre consigo mesma, criando uma unidade de pensamento ético entre Atenas e Jerusalém, sem negar que tais fundamentos construíram a identidade do pensamento Ocidental. Só nestes termos, segundo Habermas, há condições de estabelecer um pensamento relativista entre a razão pura e a fé incondicional.

Enquanto isso o cardeal Ratzinger rebate o pensamento habermasiano ao defender que desde que São João proclamou a chegada do Logos – “No princípio existia o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1,1), que se percebe que a apropriação da razão grega tem uma necessidade intrínseca, afinal afirma ele, o Deus dos filósofos é o ente divino da História, que participa da caminhada até então. Segundo a teóloga Eneida Jacobsen (Protestantismo em Revista, 2010) “Ratzinger afirma que a Igreja Católica até hoje tem feito uso da razão natural para dialogar com a sociedade secular e outras comunidades religiosas. Todavia, com a geral aceitação da teoria da evolução, a natureza passou a não ser mais vista como racional, levando à que a ideia de um direito natural perdesse sua força”.

Neste sentido, Jürgen Habermas busca uma conciliação entre a razão secularizada e “iluminista” e a razão teológica, como saída para a crise de identidade entre fé e razão, no entanto, essa aliança é construída sob bases antagônicas. O que se evidencia desta problemática categorial é que a leitura de Habermas tem por objetivo desenvolver um debate acerca do espaço de constituição da esfera pública (pela razão e pela fé que inspira ou deveria inspirar, por exemplo, a questão do Estado moderno) a partir da liberdade da pessoa humana (cujos valores são a razão e/ou a fé) e de sua responsabilidade social pela via democrática (cidadania planetária), sendo imprescindível neste percurso o exercício do diálogo (entre razão e fé) que promove a intersubjetividade como promotora da cidadania. No entanto, sua preocupação com as mudanças ocorridas no cenário capitalista burguês, principalmente no âmbito das mídias como uma nova configuração para a publicidade fizeram com que a esfera pública tenha se tornando uma oposição à opinião pública, causando a decomposição entre a dimensão pública em relação à dimensão privada, com seus interesses individuais e patrimoniais (que geram desigualdade, pobreza e desumanização do outro), e que estabelecem uma condição denunciada tanto pelo filósofo quanto pelo Papa teólogo, representada pela questão da ausência de ética nas relações humanas e na política.

Propõe Habermas em última instância uma subordinação da “razão teológica” à autoridade da razão secular, não em função do caráter religioso da subordinação de Deus à razão de natureza transcendente, mas da apropriação dos valores que cada categoria de pensamento possui para exaltação do homem e da sua condição humana.

A questão continua em aberto visto que o ateísmo não se subordina ao teísmo e às suas razões transcendentais, nesta caso, continua ao longo dos tempos a aparecer como uma forte tendência de que a questão de Deus não é meramente teórica, ela é prática, com todas as conseqüências que sua “prática” tem em nossas vidas. Daí que a cidadania (exercício de direitos) não deve ser permeada por subterfúgios ou interesses individuais, conforme propôs a lógica capitalista moderno-racionalista, mas uma inserção do homem na sua condição humana que o torna parceiro dos outros homens, cuja autenticidade se faz em expressões institucionais e em relações ateísta ou deísta de co-responsabilidade e co-cidadania, conforme fizeram, por exemplo, os primeiros cristãos nas catacumbas, no século I  d. C.,  prezavando por atitudes de razão e fé, afinal “Não havia nenhum necessitado entre eles, porque todos os que possuíam campos ou casas, vendendo-os, traziam o preço do que vendiam, depunham-no aos pés dos apóstolos e distribuía-se por cada um segundo a sua necessidade (At 4,34-35).

Não se trata aqui de uma resenha da "Dialética da secularização", mas uma modesta reflexão sobre a contribuição da filosofia habermasiana para entender a ética, nestes tempos “Pós”-Modernos, que também envolvem todas as teias de relações sociais!



Observação: Na foto, o encontro em 19 janeiro de 2004 do filósofo Jürgen Habermas e o cardeal Ratzinger (atual Papa Bento XVI) na Academia Católica da Baviera, em Munique, no qual se discutiram "as bases pré-políticas e morais do Estado democrático".

domingo, 5 de junho de 2011

Dos meus tempos de adolescente: Chaplin compositor






Para metamorfosear a vida com uma injeção de significados, trago uma composição introspectiva que lia com meus sentidos de adolescente anos atrás. (Eµfrasıø) Afinal, "A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos" (Charles Chaplin)


SORRI

Intérprete: Djavan
Composição: Charles Chaplin/G.Parson/J. Turner - versão: Braguinha



Sorri
Quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos, vazios
Sorri
Quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador
Sorri
Quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados, doridos
Sorri
Vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz

Pensar as "tessituras da modernidade"







Depois que minha colega e amiga Professora Fernanda, que ministra aulas de Linguagem e Argumentação Jurídica e Metodologia Científica, solicitou de seus alunos do Curso de Direito da FACISA e da UEPB a leitura, resenha e prova sobre o livro "Tessituras da Modernidade: entre o público e o privado", achei por bem trazer uma pequena apresentação da obra. Neste caso, essa minha leitura sobre o livro que produzimos, eu e minha esposa, não se trata de resenha ou resumo, mas apenas uma apresentação daquilo que pode ser encontrado na obra, para aqueles que tem interesse em investigar sobre os meandros dos espaços da modernidade a partir das instituições sociais (privadas e públicas), particularmente com a questão de gênero e do direito político.

O livro “Tessituras da Modernidade” acabou sendo o resultado de pesquisa acerca do fenômeno da modernidade expresso em tessituras, contextos e recortes dos espaços privados e públicos da História de nossas instituições sociais. Não há na obra nenhuma idéia conclusa e nem determinada, apenas algumas pistas de leituras interdisciplinares acerca das diferentes conjunturas sociais a partir de uma perspectiva teórica da historiografia cultural para entender as transformações no espaço privado, particularmente no âmbito da família, das identidades, do gênero feminino e das realidades do trabalho, bem como uma abordagem do espaço público na perspectiva da zetética jurídica para estudar as instituições políticas e jurídicas, a partir da idéia de participação política e das ações de promoção dos direitos sociais, que acabam sendo expressões das ações em trânsito dos espaços públicos e privados dos sujeitos sociais.

Assim, na primeira parte intitulada "As tessituras da identidade, gênero e modernidade sob os olhares da historiografia cultural", são evidenciados aspectos como a constuição dos espaços em que o gênero feminino passa a situar-se historicamente a partir das lutas pela conquista de espaços, desde o período neolítico, quando das experiências de sociedades matriarcais puderam conceber as primeiras experiências de direito maternal, até as diferentes constituições de valores identitários, conforme lembrados por Suart Hall, Michele Perrot e Mary Del Priore. A está abordagem sobre identidade de gênero é concluída com uma experiência de pesquisa numa comunidade rural da cidade de Esperança, em que as mulheres no manejo e fabrico de suas bonecas conseguem produzir seu sustento e adquirir seus espaços e lugares sociais em detrimento dos espaços antes dominados pelo masculino, o que revela que os espaços privados não são determinados, mas são construídos e transformados conforme as necessidades sociais.

Na segunda parte do livro, intitulado “As tessituras dos espaços públicos na modernidade a luz da zetética jurídica”, se procurou evidenciar uma leitura a partir da sociologia geral e jurídica e filosofia do direito para entender a constituição dos espaços públicos que nascem pela deliberação e pelas ações políticas. Para isso, foram feitos recortes e tessituras contextuais em diferentes épocas, num primeiro momento com a fase iluminista e contratualista com o advento da política e do direito moderno, que inaugura o movimento de consagração dos direitos fundamentais (direitos civis e políticos), principalmente na época das revoluções burguesas. Em seguida, nos próximos capítulos é feita uma abordagem critica sobre a importância do lugar de constituição dos espaços públicos e de consagração dos direitos políticos, com base em pensadores como Karl Marx (caráter estrutural das normas) e dos neomarxistas Antonio Gramsci (a idéia de hegemonia e ideologia na construção dos espaços políticos) e Edward Thompson (os indivíduos de baixo também constroem seus direitos). Além de contemplar a importância dos regimes democráticos em detrimento dos regimes totalitários a partir do conceito de práxis política (da condição humana de Hannah Arendt) e ação comunicativa em Jürgen Habermas, como elementos indispensáveis para entender a emancipação política dos indivíduos inseridos na sociedade capitalista. Este trabalho é concluindo com uma outra experiência de pesquisa, desta vez no município de Patos a partir da efetivação de ações publicas que nascem, por exemplo, com as políticas públicas, o foco de discussão neste ultimo capítulo é a ação do Pró-Jovem como medida de promoção do direito á educação e ao trabalho.


Para entender as tessituras da modernidade, ou seja, a organização e contextura, permeada pelo entrelaçamento de espaços privados e públicos que se metamorfoseiam, é preciso conceber este fenômeno multidimensional a partir da idéia de conhecimento reflexivo que se forma nos bastidores das ações de homens e mulheres nas
conjunturas determinadas por diferentes categorias políticas, sociais, culturais-identitárias, econômicas etc. Defende Habermas (2002, p. 121), que “a época moderna encontra-se, sobretudo, sob o signo da liberdade subjetiva”. Que se realiza, segundo ele, na sociedade como um espaço. Ao propor uma reflexão tão instigante e provocativa sobre o fenômeno da modernidade com todas as suas tessituras em aberto se abre a possibilidade de pensar sobre o destino das instituições sociais frente à transitoriedade do mundo moderno.

Aos que tiverem interesse em adquiri-lo, pode ser encontrado na livraria campinense (Facisa) e no site da editora: http://www.protexto.com.br/livro.php?livro=334