sábado, 27 de agosto de 2011

Os Dez Mandamentos do Pesquisador/Estudante


















Nestes ultimos meses estou debruçado na construção da fundamentação teórica de minha tese de doutorado, o que parece um caledoscópio de imagens, quanto mais refletimos sobre o ponto, discutimos frente as imagens trazidas no texto, mais apresentam, a cada movimento, combinações variadas e "agradáveis" de efeito visual. É preciso gastar muitos dias e noites ainda!
Paralelo a este "dramático mundo das (in)certezas acadêmicas", encontrei ainda da época que cursava no mestrado a disciplina de Metodologia da Pesquisa "Os Dez Mandamentos do Pesquisador" (autoria desconhecida), que publicizo aos meus orientandos sempre que encontro neles muitas (in)certezas.

Achei por bem, publicá-lo por aqui.


1. Não cobiçarás o tema do teu próximo, porque a grama do jardim do teu vizinho não é mais verde.

2. Não pesquisarás o que está apenas na tua cabeça, a menos que o estudo seja precisamente sobre ela.

3. Não investigarás tema sem fonte, porque a tua tarefa é fazer os dois se comunicarem.

4. Não te perderás em meio à falta ou ao excesso de planejamento, a menos que a tua genialidade te permita prescindir dele.

5. Não desprezarás a rotina, porque ela pode te liberar para o exercício da criatividade.

6. Não menosprezarás as normas, a menos que pretendás transformá-las.

7. Não te julgarás incompetente, porque não o és, até prova em contrário.

8. Não escreverás uma obra-prima, a menos que já estejas maduro para produzi-la.

9. Não farás uma colcha de retalhos, porque és capaz de um trabalho verdadeiramente intelectual.

10. Não ignorarás os teus leitores, a menos que te aches mais importante do que eles.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A GLOBALIZAÇÃO COMO COLONIZAÇÃO DOS NOSSOS HÁBITOS E PENSAMENTOS!














Uma reflexão acerca da ameaça que a humanidade hoje sofre com a "colonização" dos pensamentos e hábitos humanos em função da líquidez das relações sociais, em que os padrões de consumo, os valores sociais e a força das instituições sociais são (des) construidos pelo fenômeno da Globalização.

A globalização se configura como um novo estágio na dinâmica capitalista de produção e organização do mundo instaurado após a efervescência do modelo de acumulação do capital, particularmente na atual conjuntura com sua face flexível (flexibilização da economia, das leis, das relações de trabalho, das relações de sociabilidade etc.), no entanto, essas mudanças do processo histórico capitalista não representaram mudanças eqüitativas do ponto de vista social, político ou econômico nas sociedades contemporâneas, na verdade, introduziram uma reconfiguração das necessidades mercadológicas de acumulação flexível do capital cuja conseqüência mais imediata é a liquidez dos valores políticos, jurídicos, culturais etc., das instituições e as relações sociais se moldando sob uma conjuntura moderna e globalizada (BAUMAN, 1999, 2000, 2006).

No entanto, este projeto de sociedade moderna não se instaurou repentinamente neste século XXI, se trata de uma trajetória concebida paulatinamente sob a esteira do capitalismo, que se inicia e ganha dinamicidade a partir do incremento da globalização já na época moderna em pleno século XVI, quando surge o renascimento comercial e cultural (antropocêntrico e racionalista, esquecidos no período feudal) e a inserção do mercantilismo, das grandes navegações (via colonização dos Continentes americano, asiático e africano) e da formação dos Estados Nacionais na Europa. Aquele momento histórico se configura num contexto político, econômico, social e cultural propicio à formação de um novo paradigma econômico, que repercute nas demais camadas e setores da sociedade, principalmente como forma de consolidação do modelo estatal burguês na Europa.

Salienta o sociólogo Octávio Ianni (1998) que este processo histórico capitalista teria passado por três momentos, sendo o primeiro quando da instalação na Europa do trabalho livre, a partir do capitalismo mercantil e da organização política moldada sob as bases dos Estados Nacionais modernos, por volta do século XVI, quando as estruturas pré-capitalistas foram substituídas pelo processo de acumulação de capital. No segundo momento, entraria a configuração do modelo industrial e a implantação do capitalismo em sua dimensão global a partir de finais do século XIX, principalmente a partir da difusão da internacionalização das relações de dependência econômica e política em sua vertente da política econômica imperialista, o que teria favorecido os processos neocoloniais (África e Ásia), bem como o incremento e a difusão de tecnologias que facilitaram a propagação do capitalismo industrial e suas zonas de influência, principalmente associadas à exploração do trabalho e acumulação de riquezas. Como terceiro e ultimo processo, destaca-se a derrocada dos modelos socialistas (reais) a partir de finais da década de 1980 e início dos anos 1990, e consolidação do modelo (neo) liberal econômico com o enfraquecimento dos Estados Nacionais a partir da racionalização econômica perpassada pela lógica internacional de fim das fronteiras territoriais e esvaziamento dos espaços políticos de deliberação supranacionais.

Na década de 1980 ao surgir a emergência de uma nova divisão internacional do trabalho, baseada na globalização econômica proporcionada pelas forças empresariais multinacionais, se incrementa gradualmente uma nova economia mundial, sendo que esse paradigma estrutural propõe a partir deste momento o incremento da economia dominada pelo sistema financeiro internacional em escala global, os processos de produção flexível e multilocais, baixos custos nos transportes, desenvolvimento das tecnologias de informação e de comunicação, desregulamentação das economias nacionais, sacralização das agências financeiras multilaterais e emergência do modelo capitalista das grandes transnacionais (SANTOS,Milton. 2005).

Este fenômeno global ultrapassa as fronteiras e as dimensões antes consideradas determinantes para constituição dos valores e tradições locais, como, por exemplo, a fragilidade dos Estados Nacionais a partir do esvaziamento dos espaços políticos, a desterritorialização das fronteiras nacionais, a subjetivação ou liquidez das identidades modernas (HALL, S., 1990; BAUMAN,Z., 2006).

A globalização trouxe consigo novos paradigmas, conforme lembra Beck (1999) de que a após a queda do muro de Berlim e a derrocada do modelo soviético, o elemento que impera no contexto global não é o fim da política, mas sim a exclusão da política do quadro categorial do Estado nacional dos debates contemporâneos.

Nesse sentido, a globalização constituiu um modelo econômico capitalista industrial reforçado pelas desigualdades estruturais, tendo como elemento preponderante para este processo a flexibilização de aspectos como as relações de trabalho, gerenciamento dos espaços de deliberação política, da autonomia dos Estados Nacionais, do fortalecimento da economia e das estruturas sociais regionais e locais. O fenômeno da globalização traz o perigo da colonização das nossas instituições e dos valores humanos em detrimento da ética, infelizmente a partir das armadilhas do consumismo, da flexibilização das relações políticas e jurídicas e da informalidade das relações de trabalho e dos laços contratuais em âmbito coletivo, que maculam a luta pela conquista da cidadania e da holística do pensamento humano.