terça-feira, 1 de maio de 2018

Lévinas e o parto humanizado



Após assistir o documentário “O Renascimento do parto” e participar de um debate na universidade, ganhei fôlego para produzir um artigo intitulado A RAZÃO NASCEU DO ÚTERO: DIREITO HUMANO PELO PARTO HUMANIZADO, já publicado em revista cientifica. Em homenagem às mulheres destinadas e humanizadas (que com saúde e as condições psicológicas e físicas permitem podem parir de forma humanizada - normal) um pequeno trecho para reflexão do artigo produzido.


A partir da tradição humanitária que se instaurou nas sociedades contemporâneas fruto da influência judaico-cristã, bem como da moral socrático-platônica, a ideia de humanização do corpo tem sido fervorosamente concebido como espaço do sagrado. O corpo expressa a vida, o cuidado com ele remete a transcendência com a natureza. A sociologia do corpo expressa sua compreensão deste espaço endógeno do gênero humano, particularmente com o mistério da fisis do feminino com o seguinte entendimento: [...] o corpo é o vetor semântico pelo qual a evidência da relação com o mundo é constituída: atividades perceptivas, mas também expressão dos sentimentos, cerimoniais dos ritos de interação, conjunto de gestos e mímicas, produção da aparência, jogos sutis da sedução, técnicas do corpo, exercícios físicos, relação com a dor, com o sofrimento, etc. Antes de qualquer coisa, a existência é corporal (BRETON, 2007, p.7).


O cuidado com o corporal, principalmente com a expressão do corpo da mulher começa no útero, ritualiza-se metaforicamente a expressão humana do gesto de gerar a vida a partir do parto. Trazer no ventre uma criança transcende o valor supremo da natureza humana, afinal com este ritual se exercita a perpetuação da vida. De que a vida é gerada, nasce e se transforma no corpo da mulher e se projeta no mundo.


O filósofo Emmanuel Lévinas (1906-1996), defensor da questão da alteridade, bem como da ética que se institui por trás da axiologia do termo em questão, não propõe uma epistemologia do transcendente, mas propõe uma redescoberta da filosofia cujo elemento central passa a ser a questão ética e não meramente ontológica, desse modo, destaca a importância real da relação do homem com o outro. Neste aspecto, Lévinas ressalta a importância do eu, que possui identidade como conteúdo, assim seu existir consiste em identificar-se neste mundo, conceituando sua trajetória a partir do seu existir. A filosofia da alteridade a partir do filósofo francolituano parte da subjetividade, neste aspecto analogamente é possível entender sua conceituação para essência da maternidade. A maternidade é uma metáfora para o feminino, uma expressão para relação do sujeito com o outro. Assim, a maternidade representa esta substituição, em que o Eu gera em sim um Outro (LÉVINAS, 2005).


A mulher que gera um filho no seu frente, constrói a aproximação mais intima entre seu Eu e a sua cria, uma relação natural ao mesmo tempo convencional do Eu em relação ao Outro. Meneses (2008) afirma a partir do pensamento de Lévinas que "a subjetividade maternal fala de uma proximidade que é independente do saber, da consciência, mas que nasce na vulnerabilidade e na substituição. A maternidade precede a própria consciência" (MENESES, 2008, p. 159). Ao constatar que na contemporaneidade as mulheres têm optado pelo procedimento cirúrgico, com parto cesariano, para dar à luz, se percebe que a sociedade tecnocrática e mercadológica tem influenciado decididamente as práticas médicas, ao ponto de nos hospitais privados a taxa de partos pela modalidade cesariana ser representado por mais de 80% dos procedimentos. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) o total de partos cesáreos em relação ao número total de partos é bastante significativo. Tem-se verificado um acentuado crescimento de intervenções cirúrgicas para o parto, discrepando com as orientações oficiais que afirmam por evidências científicas que apenas 15% dos partos necessitam de procedimentos cirúrgico, sendo aconselhável que os demais 85% que se constituem de gestações de baixo risco sejam realizadas pelo parto vaginal, popularmente denominado de "parto normal".


Nestes procedimentos cirúrgicos ocorre a violência obstétrica. De acordo a pesquisa intitulada "Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado" (2010, p. 173-174), produzido pela Fundação Perseu Abramo, constatou que em cada quatro mulheres uma sofre algum tipo de violência durante o parto. A indicação médica pela intervenção cirúrgica no parto repousa influencia dos avanços tecnológicos, mas acima de tudo pelo incremento mercadológico e pelo ritmo frenético dos profissionais da saúde para ocupar cada vez mais horários de plantões e atendimentos. Neste aspecto, propõe o discurso dos Direitos Humanos, sob uma perspectiva dos direitos de solidariedade, um conjunto de ações de valorização do parto normal, humanizado, inscreve-se entre as reflexões em favor do respeito e valorização da dignidade humana, quando se trata da questão de reprodução humana e direitos de sexualidade, o respeito e cuidado pelo corpo feminino.


A alteridade na maternidade corresponde numa abordagem levinasiana à construção da subjetividade, quanto a proteção do Outro pelo Eu (LÉVINAS, 2005), em que está em jogo também a questão do parto. Nenhuma direito humano pode incorre no erro de deixar de salvaguardar a liberdade de escolha da mulher, no exercício de sua liberdade, quando se trata de dar à luz a um filho. Assim como na antiguidade a razão nasce simbolicamente do útero (método socrático), na contemporaneidade o útero também expressa a linguagem da ética, ao expressar o desejo da vida humanizada, que ocorre a partir da humanização com o parto (natural).

sábado, 30 de dezembro de 2017

TEMPO NOVO, VIDA NOVA?



E por falar em ano novo, quando o assunto é o tempo, nós humanos somos seres que almejamos o extraordinário, já afirmava o pré-socrático Heráclito de Éfeso. Precisamos cortejar a imaginação, dividir o tempo em estágios como se mil anos fosse uma vida, que pudesse ser nutrida por pensamentos em fagulhas de sonhos, como se cada período dividido em dias, meses e anos fossem degraus de uma grande escadaria que levasse ao porvir, alimentando as esperanças e afugentando a desilusão.

E se as coisas não dão por certas, lá vem mais um ano, como a metáfora de uma escadaria em que cada degrau é uma tentativa de experimentar a felicidade.

Se certezas ou não, o importante em cada escalada de um degrau a ser vencido é a possibilidade de apaziguar as inquietações diante do que a razão desconhece. Assim o é desde o prelúdio que abraçou com veemência o homo sapiens na primavera dos tempos. Desta constatação nascem algumas notas para bem acolher os dias que vem.

Se os tempos são líquidos, que cada instante não seja efusão do efêmero, mas a procura de viver na mais entusiasmada essência.

Se a vida revelar instantes de incerteza, o desejo de bem viver austeramente seja o mapa que conduza os dias.

Se o novo ano lhe traga inquietações, tranquilize a alma, encontre nas perguntas motivos de buscar intensamente as alegrias e a maturação em cada descoberta.

Tempo novo é assim, como um acorde para composição das melodias da vida, frutuoso como o anseio pela chegada da amada, palpitante como a contagem na espera de uma surpresa.

O importante é que os dias sejam esperançosos, inspiradores e reveladores como o suspiro incólume de cada degrau que se almeja chegar.  

Feliz Ano Novo a todos (as)!



Pintura: Naturaleza muerta - Carlos Pedraza Olguín (Chile)





terça-feira, 14 de novembro de 2017

La faim consomme des terres





Terra sem dono 
Povo no pano 
Gente de fome
Sistema consome 
Dono em luta
Atrás da disputa
Com forte, mordaz
Sem sorte, voraz
É o povo na terra
Que vive na serra
Na busca do chão
Pra fugir do sertão
Pois a fome consome 
Este povo sem nome (...)

Protege o filho diante da queda
A mãe fugindo da vida e da pedra
Ela sabe viver 
No viver e no sofrer
Na morte e na vida
Na vida partida
As cercas massacram
Os nobres arrasam 
Este povo de fome
Que a terra consome.


Marcelo Eufrásio (Fragmento do poema "La faim consomme des terres" ou "A fome consome a terra")

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Suite n° 1 e o desfecho de um semestre letivo






Dentre as seis suítes para violoncelo solo compostas por Johann Sebastian Bach entre o período de 1717-1723, Suite n° 1 - Preludio, é uma das mais encantadoras. Bach (1685-1750) compositor, cravista, regente, professor, violinista e violista, formou-se pelas bases do Sacro Império Romano-Germânico, atual Alemanha, praticou quase todos os gêneros musicais de sua época, exceto a ópera. Porém, sua obra prima e maior influência está nas formas populares do período Barroco. 

As suítes de Bach foram transcritas para numerosos instrumentos, entre eles, violino, viola, contrabaixo, piano, saxofone, clarinete, trompete, tuba entre outros, já na Suite n° 1, Prelúdio é um gênero musical introdutório de outra musicalidade maior, em grande medida uma ópera ou ballet. No contexto medieval, os músicos denominados de alaudistas tocavam como forma de aquecer, preparando a tonalidade, enquanto na escola bachiana, o Prelúdio é utilizado também como introdução de uma fuga ou tocata. 

Para encerrar uma semana de trabalho, após a mesura nas correções de projetos, tcc e provas, nada mais apropriado do que atentar aos encantos do Prelúdio, com toda sua leveza e floreio, que agraciam com um ritmo que resgata da memória as lembranças acadêmicas e estudantis dos tantos. Em escalas de sonhos, conteúdos, sorrisos e ebulição de expectativas marcados nos olhos atentos dos estudantes revelam-se algumas centenas de pequenos projetos desenhados nos semblantes entre salas, corredores e bibliotecas. 

Por vezes, estão eles, ora carregados por incertezas por vezes em perseverança, mais também sedimentados com a força, nutridos pela esperança ao moverem-se nestes últimos meses, como numa corrida pela incansável maratona da vida, projetando seus sonhos até conquistar mais um degrau em busca de uma vitória. 

E a prudência, a persistência e a força são os ritmos de um solo vespertino. Porque entre a Suite n° 1 de Bach e o desfecho de um semestre letivo, há bem mais harmonia do que imaginamos no tempo.

domingo, 16 de abril de 2017

A flor amarela




Cada vida que nasce é sinal indelével do amor e da criação divina, desde uma insípida bactéria que completa e harmoniza todo ecossistema até a natureza humana que se projeta para manifestar a expressão da equidade entre o sensível e o inteligível, que nasce, brota e dá sentidos à natureza.

A pequena semente que brotou no nosso jardim, e que minha pequena menina rega freqüentemente, desde que plantamos juntos faz alguns meses, ganhou um carinho especial neste Domingo (Pascal), a plantinha com suas pequenas folhas intensamente verdes recebeu do sol o brilho intenso para agraciar-nos com sua beleza, nos presenteando com sua flor intensamente amarela. Justamente para surpresa de quem adquire a semente sem saber a cor que serão as flores, o amarelo que significa luz, calor, otimismo e alegria, ao mesmo tempo, simboliza o sol, a prosperidade e a felicidade.

Nada mais esplendoroso como dádiva divina do que a vida, simbolizada no desabrochar do botão de uma flor.

A flor manifesta a graciosidade e beleza da vida que nasce e se transforma numa planta sem igual. Às vezes o sol a calcina, em outras a afaga. Nestes tempos raramente a chuva a castigava ou freqüentemente a menininha no oficio de jardineira faz o trabalho de regá-la na esperança pelo desabrochamento, cuidando, cativando e sublevando suas raízes na espera por sua espontânea beleza. Não raro à noite a envolve mansamente. Nunca a ouvi queixar-se por causa do calor ou do frio. Jamais cobra alguma coisa por sua majestática beleza. Nem o agradecimento. Ela se dá simplesmente. Gratuitamente. Não é menos majestosa quando o sol a acaricia de que quando o vento a açoita. Não cuida se a olha. Nem se incomoda se a galga. Ela é como Deus: tudo suporta; tudo sofre; tudo acolhe. Deus se comporta como ela. Por isso a plantinha com sua flor (amarela) é um sacramento de Deus: revela, recorda, aponta, reenvia.

O amor pelo outro e por aquilo que se faz gera fé na vida em plenitude. Feliz Páscoa!    

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Aria sulla quarta corda


Existem músicas que se eternizam pelo seu movimento, pelo teor simbólico e pelo encantamento melódico que possuem, penetram no mais intimo da alma, fazendo transcender nos tempos, simplesmente por sua profundidade tão íntima, transmitem vibrações que entoam notas aos sentimentos e a razão.

Porque simplesmente uma composição clássico é elixir para as agruras da vida!


"Aria sulla quarta corda" ou Ária da quarta corda é uma adaptação para violino e piano do segundo movimento da peça original que faz parte da Suíte nº 3 para orquestra, em Ré Maior, de Johann Sebastian Bach, BWV 1068, escrita para o Príncipe Leopoldo, entre 1717 e 1723. 

A peça "Aria Sulla corda" em especial, representa iconicamente uma melodia que guardo nas minhas lembranças desde a tenra idade. Memória dos domingos, quando o cheiro do café preparado por minha amada mãe se confundia com a radiofania dos "clássicos eternos" ou das fitas k7 com as peças de Bach e Mozart naquele clima de profundo engajamento em um momento de paz. 

Nesta semana de incisiva para oração, silêncio e contrição, as peças sacras de Bach nos levam a intima contemplação dos passos da via crucis e ao encontro do crucificado.


sábado, 31 de dezembro de 2016

It cannot wait, I'm yours







Nós humanos somos seres engraçados, precisamos brincar com a imaginação, dividir o tempo em estágios como se mil anos fosse nossa vida, nutrida por pensamentos em fagulhas de sonhos, como se cada período dividido em dias, meses e anos fossem degraus de uma escadaria que nos leva ao porvir, alimentando as esperanças e afugentando a desilusão.

E se as coisas não dão certas, lá vem mais um ano, como a metáfora de uma escadaria em que cada degrau é uma tentativa de sentir a felicidade.

Se certezas ou não, o importante em cada escalada de um degrau a ser vencido é apaziguar as inquietações diante do que a razão desconhece. Assim o é desde o prelúdio mitológico que abraçou com veemência o homo sapiens na primavera dos tempos. Desta constatação nascem algumas notas para bem acolher os dias que vem...

Se os tempos são líquidos, que cada instante não seja efusão do efêmero, procure viver na sua mais entusiasmada essência.

Se o prólogo da vida revelar instantes de incerteza, o desejo de bem viver austeramente seja o mapa que conduza os dias.

Se o novo ano lhe traga inquietações, tranquilize sua alma, encontre nas perguntas motivos de buscar intensamente as alegrias e a maturação em cada descoberta.

Tempo novo é assim, como um acorde para composição das melodias da vida, frutuoso como o anseio pela chegada da amada, palpitante como a contagem na espera de uma surpresa.

Não dá para esperar, que os dias sejam esperançosos, inspiradores e reveladores como o suspiro incólume de cada degrau que se almeja chegar.  

Feliz Ano Novo a todos (as)!

Com esperanças, Marcelo.  

sábado, 3 de dezembro de 2016

I have a dream



Fazem algumas luas que me encontro carregado de saudade,
as mãos e pés calejados me trazem uma icônica lembrança
do consolo dos braços amorosos em tardes cinzentas de outono.

Ao trazer na memória essa lembrança, reavivam alguns dos sonhos da minha infância, mesmo quando a dor calcina.
Mas, no coração repleto de fé e esperança, anseio pelo prelúdio de um pôr do sol celeste, restando-me um sopro de vida e as lições legadas por meus pais.

E, se a saudade demarca seu território em cada primavera,
os sonhos que tenho são a marca indelével de minhas lembranças, sabendo que a presença eterna de meus pais se fortalece nos braços de minha família.

In memoriam.






➱ A foto acima denominada "mãos da paz" foi produzida com imagem das mãos dos meus pais para confecção da capa do livro de minha autoria intitulado "História do Direito e da Violência: recortes de uma abordagens interdisciplinar" (2009)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

"O INFERNO SÃO OS OUTROS!"




Sempre gostei de música country americana, particularmente algumas músicas como "If Tomorrow Never Comes" de Kent Blazy e Garth Brooks. Lembro que fazem pelo menos dez anos, na época dos meus estudos de proficiência, estudava a partir da produção de algumas traduções de textos e músicas. Uma das musicas que interpretei foi exatamente "If Tomorrow Never Comes" dos norte-americanos Blazy & Brooks.

Rememorando um pouco do passado, acabei transferindo para o texto essa modesta leitura sobre as entrelinhas desta musica a partir do pensamento de Jean-Paul Sartre. Afinal se os dias passam, e descobrimos quantas coisas passaram sem nos darmos conta e sem viver as oportunidades de expressar o que somos e o que sentimentos em relação aos outros, estamos inseridos no campo da intersubjetividade e na profunda construção do Eu (existência).

Na música encontramos trechos como:

"'Cause I've lost loved ones in my life
Who never knew how much I loved them
Now I live with the regret
That my true feelings for them never were revealed
So I made a promise to myself
To say each day how much she means to me
And avoid that circumstance
Where there's no second chance to tell her how I feel"

(Tradução)
"Eu já perdi pessoas em minha vida
Que nunca souberam o quanto eu as amava
Agora eu vivo com o remorso de que
Meus verdadeiros sentimentos por elas nunca foram revelados
Então eu fiz uma promessa a mim mesmo
Dizer a cada dia o quanto ela significa para mim
E evitar aquela circunstância
Onde não há uma segunda chance para dizer o que eu sinto".


Quem nos ajuda a entender este trecho é o filósofo Jean-Paul Sartre (1905—1980), famoso por sua filosofia existencialista e por ter se recusado a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1964. Aquele pensador francês foi ativista dos direitos humanos e dos movimentos estudantis na Universidade de Sorbonne em Paris durante maio de 1968, época de grande contestação dos padrões moralistas da sociedade francesa e contra o governo conservador do general Charles de Gaulle. Para filosofia contemporânea, Sartre instrumentaliza sua abordagem baseando-se numa filosofia que afirma o Ser humano pela sua existência que precede a essência, pois, nesta perspectiva o homem primeiro existe, depois se define, enquanto todas as outras coisas do mundo são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma "essência" posterior à existência.

Neste sentido, quando pensa a ideia de liberdade, a filosofia sartriana não se prende a elementos externos e nem a valores sobrepostos (nem tão pouco às instituições sociais, nem aos valores da Igreja e nem a moralidade convencionada), assim como o filósofo Nietzsche defendia que já não havia a existência de um ente divino que pudesse justificar os acontecimentos, nem aquilo que se entende por destino, que passava a ser inconcebível, neste caso, o próprio homem seria o responsável por seus atos e escolhas. Para Sartre, nossas escolhas são direcionadas por aquilo que nos aparenta ser o bem, especialmente daquilo que o Ser humano entende representar o bem e assim tendo consciência de si mesmo. Em outras palavras, para Sartre, o homem é um ser que projeta-se enquanto deus. No entanto, ele tem ciência de que este mesmo homem sofre com suas limitações humanas (por exemplo, a morte) ao encarar o mundo, após descobrir sua essência.

É com a liberdade que o homem projeta sua capacidade de fazer escolhas, mais também de reconhecer suas limitações, principalmente de natureza física. Destas limitações humanas estão a capacidade humana de fazer as escolhas, pois neste exercício está o fato do Ser humano determinar suas escolhas como sendo corretas e como representação do que seja bom.

Ao vermos na música "If Tomorrow Never Comes" a angústia interior do personagem que sussurra na calada da noite dizendo: "Algumas vezes tarde da noite, fica acordado observando ela dormir, pois, Ela está perdida entre lindos sonhos, Então eu apago as luzes e me deito na escuridão, E pensamentos passam por minha cabeça: E se eu não acordar amanhã? Será que ela terá dúvidas de que a amei, Com todo o meu coração?" nos faz lembrar que o medo de não expressar os sentimentos às pessoas amadas em vida é um momento sublime de encarar as angústias que povoam o Ser humano durante sua existência. Afinal, quando Sartre propõe que a essência do homem nasce daquilo que é sua existência, ele defende que a liberdade é o exercício desta construção cognitiva, que começa com o outro e não com nós mesmos. Ninguém se faz sozinho no mundo, por mais que a filosofia existencialista não acredite em Deus e nem na moralidade mundana, ela (a filosofia de Sartre) deseja que o Ser humano em todas as suas escolhas individuais levem à transformação do mundo para que o homem se adapte ao seu projeto. Isso quer dizer que cada pessoa tem um projeto diferente, e isso faz com que as pessoas entrem em conflito com os projetos de vida alheios, mas que com isso não signifique uma proposta de vida individual em detrimento dos outros.

No entanto, apenas através dos olhos de outras pessoas é que alguém consegue se ver como parte do mundo (daí a angustia do personagem da música de Blazy & Brooks em expressar seus sentimentos a mulher amada, aos amigos e aos entes queridos). Sem a convivência, uma pessoa não pode se perceber por inteiro, a realização do Ser enquanto Humano, não está nas roupas de grife, nos cartões de crédito, nos carrões importados, nas futilidades e nos consumos (por vezes aparentes), ou no uso particular da coisa pública (como fazem alguns parlamentares, governantes, "religiosos", apadrinhados etc.), mas na concretização de um projeto pessoal do que sou e serei com o passar dos anos, principalmente quando reconhecemos que é o outro que terá condições de afirmar o que fomos e quem somos.

A filosofia existencialista de Sartre nos ajuda a pensar a partir da música (ver video acima) "If Tomorrow Never Comes" de Kent Blazy e Garth Brooks, que só através dos olhos dos outros podemos ter acesso a concretização de nossa própria essência, ainda que efêmera. Só com a convivência somos capazes de ter alguma certeza de que estamos fazendo as escolhas que realmente desejamos. Quando Sartre afirmou em uma das suas peças de teatro, intitulada "Entre quatro paredes" a celebre frase: "o inferno são os outros", este propõe para trabalhar a intersubjetividade que, mesmo que os outros impossibilitem os nossos projetos, colocando-se sempre no caminho, não podemos evitar a convivência como forma de descoberta de nossa própria essência no existir.

sábado, 29 de outubro de 2016

SONETO DAS MARIAS QUIXOTIANAS



Neste dia 29 de outubro em comemoração ao Dia Nacional do Livro, uma pequena homenagem a leitura infantil.


SONETO DAS MARIAS QUIXOTIANAS


Ah! Se toda imaginação fosse lúdica,
toda viagem transitasse nas sendas do imaginário,
todo homem feito tivesse um quaternário
e sua vida pudesse realmente pulsar.


Suas escolhas não fossem moldadas pela incompreensão
seus sonhos mais íntimos já abraçassem a realidade,
seus acordes um ritual pueril da antiefemeridade
e as melodias para a vida uma inculturação. 
 

Para minha filha deposito no altar de sua vida
cada momento melódico e feliz da gestação
fugindo da insípida rotina da erupção. 
 

E, que toda criança em tempos efervescentes
descubra o prazer de uma leitura
vicejante como Quixote revestido de sua armadura.

(Marcelo Eufrásio)

domingo, 9 de outubro de 2016

Habermas no supermercado?!


 Em um destes dias setembrinos, fazendo compras com minha esposa num dos supermercados da cidade, ao tempo que procurava coisas interessantes para fazer enquanto as pernas, a grana e o carrinho se empanturravam de peso e do consumismo do mês, horas que nos testam no bolso e na paciência, passados alguns minutos, eis que de repente naquele labirinto “eterno” de prateleiras e seções encontro um sujeitinho franzino e alto, vestido em trajes aos moldes germânicos em pleno clima serrano campinense. Até procurei fingir não perceber de início, mas se buscava ricota lá estava ele, se corria atrás das frutas o "germânico" se fazia presente, como uma tentação. Depois de muita recusa e insistência, vi que ele era a figura icônica de um verdadeiro sósia de JÜRGEN HABERMAS, depois disso, comecei a persegui-lo seção por seção com uma tietagem frenética, aparecia coragem e ao mesmo tempo timidez, queria de todas as formas registrar uma foto com aquele que seria um dos grandes ícones da filosofia e da teoria social do século XX. Imaginei de início que tirar uma foto com ele seria como ir até Frankfurt ou como presenciar o embate histórico entre razão e fé, quando do grande encontro entre Habermas e seu conterrâneo, o Cardeal Joseph Ratzinger (Papa emérito Bento XVI) num debate filosófico ocorrido na década de 1990.

Nestes tempos adventícios para o processo eleitoral com candidatos que se rasgavam, se acusavam e se conspiravam movendo mundos e fundos, acabei recuperando um pouco das memórias da teoria social desenvolvida a partir do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt (1924), também conhecido como Escola de Frankfurt, que se constitui como sendo uma estrutura acadêmica de pensamento filosófico-sociológica organizada sob uma matriz de conhecimento voltada às questões atinentes a modernidade, principalmente dentro do contexto do mundo capitalista que insurge no séc. XX no período entre guerras e no cenário burguês industrial.

Neste caso, Habermas, que jurei ter encontro num supermercado em Campina Grande, é um destes filósofos fundamentais ainda vivos que ajudam a entender o espaço público e a participação política dos indivíduos, principalmente no processo eleitoral de uma sociedade revestida pelo Estado Democrático de Direito. Para tanto, segue abaixo dois trechos de duas de suas importantes obras “Conhecimento e interesse - Escola de Frankurf (1975)” e "Para a reconstrução do materialismo histórico (1983)" para registrar a grande importância dos sujeitos políticos na luta (dialeticamente) pelo agir comunicativo como recurso para desenvolver as ações intersubjetivas presentes no diálogo e no espaço público, principalmente enquanto espaço de reconhecimento do direito e da moral:

"É lógico que o processo de comunicação só pode realizar-se numa sociedade emancipada, que propicie as condições para que seus membros atinjam a maturidade, criando possibilidades para a existência de um modelo de identidade do Ego formado na reciprocidade e na ideia de um verdadeiro consenso" (HABERMAS, 1975, p. 300).

"(...) moral e direito definem o núcleo da interação. Revela-se aqui, por conseguinte, a identidade das estruturas de consciência, encarnadas, por um lado, nas instituições do direito e da moral e, por outro, expressas nos juízos morais e nas ações dos indivíduos" (HABERMAS, 1983, p. 15).

Coisas imprescindíveis para pensar acerca do destino do gênero humano na vida pública durante os processos eleitorais e suas consequências conjunturais, mesmo que tenham nascido entre os labirintos das seções de um supermercado!

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

A mídia numa fagulha de setembro



Numa conjuntura politicamente marcada por denúncias midiáticas, violências espetacularizadas, frases de efeito, contingências descontextualizadas e ainda a "vida que não imita a arte" (Platão nunca diria que imita, a arte seduz nossos sentidos e nos desvia das reflexões sobre a verdade), o discurso midiático legisla, adestra opiniões e das nossas TVs (e smartphone) surgem alienígenas e salvadores da pátria numa fagulha de setembro.
 
Seguramente o filósofo Guy Debord continua atual quanto a sua análise sobre debilidade espiritual, muito embora a bipolaridade e o fetiche de mercadorias tenham buscado novas reconfigurações e ressignificados. Vale a pena citá-lo: "o espetáculo é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta na sua plenitude a essência de qualquer sistema ideológico: o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real. O espetáculo é, materialmente, a expressão da separação e do afastamento entre o homem e o homem" (DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. 2003, p.161-162).

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A (CONS)CIÊNCIA DO EU




E se o Eu que penso é aquele que apedreja?
Das entranhas do abismo em que me perca,
moram os fantasmas que me levam ao teu beijo,
e as amarras que seguram o meu peito,
Medeia persiste o frívolo do íntimo preconceito.



Porém, as verdades que transitam minha mente,
são as mesmas que imitam o meu sim,
uma ontologia que desceu com um querubim,
alimenta a consciência para um bonfim
e minha surdez frente o sedutor sibilar da serpente.

Se a lucidez faz-me ter a certeza do meu EU,
a minha ciência nasce na consciência do infinito.  

domingo, 15 de maio de 2016

O milagre do Espírito acontece todos os dias





Frequentemente são noticiados nos jornais e demais meios de comunicação reiterados casos envolvendo jovens que se perderam no caminho das drogas em decorrência do vício e das sequelas motivadas pela dependência química, sejam associados aos problemas de doenças ou associados às violências endêmicas. Alimentado pela chaga social da dependência química, que gera o vício (droga) mudam-se vidas, desenham-se por vezes em situações trágicas muitos dos destinos dos indivíduos e familiares que têm histórias de vida associadas com a realidade do consumo ou tráfico de drogas, que em grande medida são ceifadas vidas de jovens e adultos de diferentes camadas sociais por causa deste problema.

A vontade de se livrar do vício e da dependência química é o fator preponderante para representar o primeiro passo para um tratamento.  A iniciativa geralmente tem sido difícil e dolorosa para muitos, historicamente por não terem consciência da problemática em que se encontram, muitos continuam maculando seus corpos, gradativamente. São muitos os depoimentos de jovens em tratamento que diziam, “comecei com a bebida, quando ela não me satisfazia mais, procurei a maconha e depois o crack”. E em decorrência das substâncias químicas alucinógenas e psicoativas, seguramente o dependente não tem noção do problema que enfrenta, por vezes, colocando sua vida e de sua família em risco.

Porém, há meios de tratamento e de emancipação em decorrência do vício e de suas sequelas. Atualmente tem se convencionado pelo menos três modelos de internação para o tratamento de pessoas em situação de dependência química. Dentre as modalidades de tratamento apregoado pela Lei 10.216/2001, destaca-se o tratamento voluntário, cujo modelo é adotado pela Fazenda do Sol (instituição católica, localizada em Campina Grande-PB na está situada na BR 230, Km 143,5 - Santa Terezinha).

O indivíduo que almeja um tratamento por meio da internação voluntária tem a liberdade de realizar o primeiro passo para recuperação, mediante a vontade livre e consciente de buscar ajuda e o tratamento sem intervenção medicamentosa. Conforme propõe a filosofia do tratamento contra a dependência química na Fazenda do Sol, o interno delibera sobre seu tratamento, a sua escolha é respeitada, no momento que resolve renunciar o mundo e orientar-se pelos princípios que sustentam aquela instituição religiosa.

Nesta proposta de tratamento, as dimensões da convivência comunitária, da espiritualidade e da teoria ocupacional entre os co-adictos passa a representar critérios imprescindíveis para reconhecer com os outros, sua condição, suas limitações, seus sonhos e suas vontades de superar a condição de “homem velho”.

Na foto acima está registrada a imagem do Cristo crucificado e de sua (nossa) mãe, sob o título de Nossa Senhora do Carmo na capela localizada na Fazenda do Sol, lugar de agradável acolhimento e icônica beleza, refugio de peregrinos e adeptos da fé incondicional no milagre da vida. Uma cena que nos remonta a dimensão da espiritualidade, alimento imprescindível para condição humana. Neste dia festivo de Pentecostes, em que celebramos o Dom de Deus a todos os crentes, a doação dos dons pelo Espírito que dá vida, que renova, transforma e constrói a comunidade fazendo nascer o Homem Novo, é momento de recuperar o sentido do resgate e do nascer de novo. A Fazenda do Sol é lugar propício para cada pessoa humana que resolve fazer a experiência da abstinência e da recuperação, encontrar sentido para a vida, nutrir seu corpo e seu espírito de verdadeiro encontro com Deus e com os dons que só Ele nos dá.

Lembremos das palavras do apóstolo São Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios (1 Cor 12,3b.7.13): “Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, a não ser pela ação do Espírito Santo. Em cada um se manifestam os dons do Espírito para o bem comum. [...] E a todos nos foi dado a beber um único Espírito.

No contexto da comunidade de Coríntios atuante e fervorosa na fé, também se encontrava difícil convivência e respeito à vivência do amor e da fraternidade em decorrência das divisões e dos interesses pessoais. O apóstolo Paulo alerta para o verdadeiro “carisma” que confessa Jesus como o Senhor e que é fundamental para o bem da comunidade.

É preciso que os membros da comunidade tenham consciência de que o tratamento passa pelo respeito às diversidades e a promoção da unidade, afinal cada interno nutre suas subjetividades, identidades, bem como seus medos, ansiedades e desejos mundanos. No ambiente de comunhão e experiências em prol da recuperação é momento oportuno para acolher os dons e virtudes de cada um, como nos ensina o apóstolo Paulo, apesar da diversidade de dons espirituais, é o mesmo Espírito que age nos membros da comunidade, mesmo diante da diversidade das funções, é Jesus que está presente em todos em meio à diversidade das práticas em prol da comunidade, é um único Deus que age em todos. Lembrando do tratamento dos adictos, são nas dimensões vivenciadas na Fazenda do Sol que a ação do Espírito Santo opera milagres todos os dias, cada um com seus dons, nutrem e vivenciam a experiência com os demais que estão em tratamento, que vêm de diferentes lugares sociais em busca de recuperação, oferecendo e partilhando seus dons uns com os outros pelo bem comum. 


O milagre de Pentecostes acontece na Fazenda do Sol a partir do resgate da vida, quando descobrem e nutrem os dons escondidos, por vezes imperceptivelmente, vivem os milagres na comunhão dos “dons” que recebem e não podem ser causa para conflitos e divisões, é o real sentido para servir ao bem comum e para reforçar a vivência comunitária. Neste sentido, os “homens velhos” carcomidos pela dor da dependência química são agraciados na fé e na coragem ao encontrar sentido para vida, tornando-os “Homens Novos” pela força do Espírito.