domingo, 23 de março de 2014

A importância do lar em detrimento da família na educação dos filhos



A família no modelo Ocidental constitui na perspectiva judaico-cristã, dentre as demais instituições sociais, aquela em que repousa a matriz de formação dos indivíduos do grupo social. Pois, que, o núcleo familiar é encontrado nas sociedades humanas inspirados sob este construto cultural, sendo imprescindível para este paradigma da vida social. Acontece que a prerrogativa da educação, por vezes, em sociedades dominadas pelo patriarcado, modelo de instituição familiar que é administrado sob égide da dominação masculina (poder do macho - provedor), instituiu um tipo de educação familiar hostil e antiético. Sendo ele admitido pelo senso comum como modelo tradicional de educação familiar para os filhos, logo encarado como o mais adequado. 

Historicamente, o conceito de família Ocidental tem origem na civilização romana, etimologicamente latina, a palavra tem como raiz (radix: origem) "fam" ou "famel", que significa literalmente escrava. Nas sociedades clássicas antigas, os escravos faziam parte da família, viviam no lar, subjugados às ordens dos seus donos, como "res" (coisas - instrumentum vocalis) também tinham por atribuição educar os filhos das elites (classe patrícia), para serem submetidos aos pais e ao Estado. Naquele contexto, o amor (cuidado e zelo pelos laços de consangüinidade ou afinidade entre os parentes) dava lugar ao medo (submissão e respeito). Neste sentido, o termo lembra que família também está associado aos domésticos, ou seja, os escravos da época. A palavra "doméstico" está intimamente associada a noção de "domesticar", que significa controle, imposição, sanção, castigo etc., que restringe ou mácula a liberdade. 

Os domésticos da Antiguidade Clássica não são os familiares de hoje, mas em diferentes contextos da atualidade a domesticação se confunde com "educação familiar". Quando me deparei com a imagem que anda circulando nas redes sociais, particularmente no facebook, fiquei me perguntando até que ponto alguém pode acreditar que essa cena acima pode retratar verdadeiramente um modelo ético de "educação" ou ainda se isto é verdadeiramente um modelo educacional. Adianto que, esta cena (uma criança sendo castigada pela mãe ou pai) não pode ser representada como algo que traduza ou lembre educação.

Desculpem os leitores pela sinceridade, não contive minha impressão sobre a imagem acima, mas isso irremediavelmente não é educação, histórica e etimologicamente chama-se "domesticação e adestramento" - "educativo coativa" (leia-se, direito de impôr obediência mediante o castigo e a força). Afinal, de onde nasceu a "educação" na sua essência não habita o exercício da repressão e do castigo, e sim, nele predomina liberdade e diálogo. Esses sendo os elementos que traduzem a educação de um homem justo, como defenderia o filósofo Platão.

Os gregos, particularmente aqueles da escola socrática, freqüentadores da Academia platônica, sabiam que a virtude se aprende pela educação (paidéia) e esta não se impõe, se constrói (pela dialética). Após atribuladas transformações no núcleo familiar, ainda sob resquícios do patriarcado, a família tem deixado de ser o único provedor de um modelo educacional. Na pós-modernidade (modernidade tardia) a profecia que se constata é da crise do paradigma familiar tradicional (a organização pai-mãe-filho), levando-se em consideração hodiernamente novos arranjos familiares, que se formam e passam a ser reconhecidos, seja de casais homoafetivos, pais separados etc. E neste contexto, a educação se volta para importância do lar e não da família. 

A palavra "lar" também etimologicamente latina (romana), significa "lugar dos deuses", isto é, os lares eram o local onde os romanos acreditavam que os deuses habitavam. O lugar de acolhimento e tranqüilidade onde as almas dos antepassados se encontravam. Nos rituais politeístas romanos, os lares eram o lugar de reunião, acolhimento e proteção, geralmente onde se acendia a "lareira" (termo que surgiu do conceito de lar), naquele local se transmitiam ensinamentos aos mais jovens, se contavam narrativas do passado, se cultuavam as divindades etc. Neste termos, a família tem sido sucumbida de sua missão em razão de uma série de alterações da conjuntura atual, com destaque para influência da mídia, das novas tecnologias e de valores diferenciados daqueles tidos como tradicionais. Neste contexto, o lar passa a ganhar o espaço de promoção da educação, seja ele habitado ou não pelo núcleo (familiar) tradicional, inclusive sendo ele incorporado por modelos diferenciados, isto é, pais ou mães solteiros, viúvos, casais homossexuais etc. De maneira que se propõe uma atualização do discussão de humanização e alteridade, principalmente frente aos novos desafios que se apresentam, visto que, em se tratando de novas configurações nucleares, a mensagem humanista e amorosa do Cristo ecoam com maior intensidade "um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros" (Jo 13:34-35).
A partir do contexto simbólico do lar o grupo se reúne a partir da lareira (metáfora para resignificar a importância do lar) que aquece, num espaço de reunião, coalizão de interesses e oportunidades, onde se transmite amor, afinidades, ensinamentos, onde se partilham experiências. No modelo ético, que trata os iguais de forma igual, não há espaço para cenas de "castigo" e ódio como na cena acima.