domingo, 28 de outubro de 2012

SE O FACEBOOK FALASSE ELE DIRIA MINHA VIDA

http://www.youtube.com/watch?v=b3XWBUFAFpU
(Vídeo sobre o problema da privacidade e intimidade nas redes sociais - o caso do Facebook)

Nestes tempos "pós-modernos", particularmente nestes últimos anos a busca desenfreada e frenética pelos canais de comunicação global se intensificaram nas redes sociais e ferramentas online, principalmente as redes de relacionamento e os meios de contato virtual. Nem é preciso sair de casa para manter contatos ou aproximações humanas, mesmo que sejam virtuais, afinal os laços (in)materiais se fazem nas redes sociais. Com o tempo não há mais estranhamentos, principalmente se as distâncias são encurtadas e as mensagens "inferiorizam" as antigas cartas (postais) como peças de antiquário, entregues via Correios com alguns dias depois de enviadas.

Como afirmou o sociólogo Manuel Castells: "A revolução da tecnologia da informação e a reestruturação do capitalismo introduziram uma nova forma de sociedade, a sociedade em rede". (CASTELLS, M. A Sociedade em Rede, São Paulo: Paz e Terra, 1999). 

Neste contexto, a sociedade que aparentemente poderia  se constituir como um modelo de habitat social informacional e coeso, na verdade se revela como uma falácia, no sentido de instituir, convencionalmente, mecanismos difusos de predominância da produção de diferentes identidades e subjetividades. Há uma forte predominância das redes virtuais e não reais no mundo "pós-moderno", que coloca em xeque as categorias e conceitos tradicionais, como individualismo, intimidade-privacidade, relações de poder aos moldes tradicionais etc. Assim, as dimensões básicas da vida, como, por exemplo, tempo e espaço, são desconstruídas e a interação dos espaços local - regional - global acabam expressando um mundo globalizado no qual, "todos os processos se somam num só processo, em tempo real no planeta inteiro" (CASTELLS, 1999).

Afora este contexto, temos o problema que usualmente se tem assistido nas redes sociais, especialmente na ferramenta criada em 2004 por Mark Zuckerberg, o "Facebook". O frenético mundo virtual que se metamorfoseia em diferentes sentidos e vozes que desejam se fazer reconhecidos e ouvidos, acrescendo ainda, uma forte necessidade social de se fazerem existir ganham espaços e adeptos rapidamente. A existência que precede a essência, como fundamento vital do ser humano segundo o pensamento sartriano não é neste caso reconhecido integralmente. O problema é que o homem virtual "pós-moderno" não está condenado a ser livre, mas se tornar escravo de suas vaidades e da efemeridade. E busca reconhecer-se enquanto existente em relações que lhe distanciam do outro, desejando que o mundo virtual responda e informe aos outros conectados: "quem sou, como vivo, o que faço, como penso, com quem me relaciono, como me relaciono etc." em tempo real. Um problema que está no epicentro da transição entre moderno - "pós-moderno".

O sujeito "pós-moderno" ou na "sociedade em risco", sendo esta última expressão cunhada pelo sociólogo Beck, seja a "individualization argues that we are in the midst of a fundamental change in the nature of society and politics. This change hinges around two processes: globalization and individualization". 

Afinal, é instigante e tentador se inserir no mundo virtual e em tempo real a partir do cotidiano e dos desejos não realizados, mostrando ao mundo que existimos, fazendo do nosso mundo um "Big Brother" diuturnamente, inclusive fazendo pensar que nas redes sociais todos os indivíduos são reconhecidos, lembrados e se tornam importantes, mesmo que seja apenas virtualmente. A sociedade virtual está formando o indivíduo preso - "escravo" - de sua própria condição, que, neste caso, não vive, não dormi, não estuda, não lê, não se diverte, não é livre, logo não existe, influenciado por uma rede de novos códigos cotidianamente, que condicionando-se ao "outro" que também está conectado, mesmo que este outro não tenha nome, não tenha rosto e não se identifique, mas lhe sacie a fome de "existir". Existir virtualmente, "aqui estou" e "como estou" ou "como estou fazendo isso agora"!

Ao sujeito "conectado na sua rotina diária" que (ainda) não nasceu para ser livre, resta-lhe a prisão virtual sob as sutilezas de um novo panóptico, que impõe a vigilância que só as ferramentas tecnológicas e comunicacionais  possuem, desbravando uma "sociedade disciplinar" aos moldes "pós-modernos". Os mecanismos de contato, desde o ato de abrir a tela do aparelho eletrônico (celular, ipod, notebook, pc etc.) até a inserção de dados se configura em um jogo de rituais de poder disciplinar e de saberes (mesmo com informes falsos, palavras e redações equivocadas etc.), uma trama de subordinação e estigmatização de si em relação ao "outro", conforme acentua o filósofo Foucault:  

"O exame combina as técnicas da hierarquia que vigia e as da sanção que normatiza. É um controle normatizante, uma vigilância que permite qualificar, classificar e punir. Estabelece sobre os indivíduos uma visibilidade através da qual eles são diferenciados e sancionados. É por isso que,  todos os dispositivos de disciplina, o exame é altamente ritualizado. [...].A superposição das relações de poder e das de saber assume no exame todo o seu brilho visível." (FOUCAULT, M. Vigiar e punir, Petrópolis: Vozes, 1977).

Portanto, as redes sociais, apesar da importância enquanto canal de contato, de transferência de informações e de encurtamento de distâncias para relações (inter)pessoais e/ou profissionais ainda é mal utilizado por boa parte da população. É preciso ter prudência, para não se deixar levar pela vaidade e a carência existencial dentro de uma "sociedade em risco" e "em rede" que deseja construir sujeitos escravos (viciado) de sua própria condição existencial.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Violência pelo voto - " povo marcado, êh! Povo "feliz" "




Link da reportagem do JPB sobre as eleições e violência na Paraíba no pleito de 2012 (entrevista com o Professor e Jurista Aécio de Melo Filho): http://g1.globo.com/pb/paraiba/jpb-1edicao/videos/t/campina-grande/v/balanco-confirma-78-casos-de-violencia-com-motivacao-politica-no-domingo-de-votacoes-na-pb/2183826/


A reportagem do JPB da última segunda-feira, dia 09 de outubro, nos oferece um panorama dos resultados das eleições no estado da Paraíba, ao tempo em que trás algumas consequências negativas do pleito no tocante ao problema da violência. Meu amigo e colega Prof. Aécio de Melo Filho de maneira acertada nos ofereceu na reportagem algumas pistas do legado coronelista, patrimonialista e mandonista deste processo que se arrasta por entre décadas na história local.

Durante e após a campanha eleitoral os ânimos são acirrados, os discursos religiosos se banalizam (todo candidato vitorioso se torna sócio de Jesus ou Maomé, afinal até parece que todo texto sagrado "combina" com a vitória), as antigas amizades e laços familiares se rivalizam e até mortes acontecem, para no final o continuísmo perpetrar a mesma faina. Como se as eleições fossem uma viagem, ou seja, um rodizio em que os passageiros transportados de quatro em quatro anos no transporte/ônibus "público" (ou seja, a prefeitura ou câmara municipal) buscassem um lugar na sombra. E aos derrotados e "dependentes diretamente dos empregos públicos (bicos, sem concurso)" restassem-lhes uma viagem de quatro anos a pé, testemunhando ao sol a dor, fome e lágrimas.

Há uma rica literatura historiográfica que testemunha e analisa este processo político nordestino e brasileiro, que ganham diferentes sutilidades mesmo com todo aparato "pós-moderno" da Justiça Eleitoral. Por exemplo, Victor Nunes Leal  no livro "Coronelismo, enxada e voto" (1948), analisa o sistema coronelista a partir do mandonismo e da tradição política dos chefes políticos locais, proprietários de terra, detentores das vontades dos eleitores, dos empregados de suas fazendas e até dos órgãos públicos, os assim convencionalmente chamados "coronéis" (embora sem o título militar, estes compravam a patente de coronel para adquirir o direito de constituir tropas provisórias afim de proteger seus interesses particulares na região e proteger-se em épocas de conflito), que marcaram a literatura moderna no Brasil e a História. Desde a formação das antigas câmaras municipais no século XVI passando pelo Império (1822-1889) com o voto censitário (baseado na renda do eleitor) e na República Velha (1889-1930) com os arranjos da política dos governadores e seus aliados locais, que a estrutura governamental é representada pela figura do "dono do poder político local" e que perdura arrojadamente no cenário nordestino.

Um problema que perdura no tempo e que se torna hodiernamente dramatizado nas cenas das cidades interioranas no Nordeste e na Paraíba com base nos fortes resquícios deste poder local, marcado pelo continuísmo destes processos de forma difusa e arrojada, a partir de difamações, acusações etc. A partir do controle do voto, do emprego, das consciências e das dores nas calçadas, nas ruas, nos lares, nas igrejas, nas escolas e nos ambientes de trabalho, inclusive arrojando-se até nas redes sociais (facebook, youtube, twitter etc.). 

Concordo com o ilustre colega e amigo Prof. Aécio do tocante a uma possível solução para o problema da violência nas eleições e na montagem do cenário político local quando ele afirmou, "a falta de uma maior presença das instituições". Mas esta não deve se resumir a questão de segurança. Esta presença deve permear a operacionalidade de ações voltadas a atuação, principalmente do Estado nas ações públicas, pois a sua ausência tem por consequência, por exemplo, a falta de mecanismos estruturais nos municípios, principalmente nos pequenos municípios, onde há falta de escolas de qualidade, geração de emprego e renda (não apenas e exclusivamente na prefeitura), sistema de transporte e de saúde de qualidade, segurança pública, moradia e nem saneamento básico etc.

No entanto, levanto um outro aspecto, já evidenciado pelo sociólogo francês Robert Castel no que tange a falta de políticas de Estado, particularmente no caso em tela (nossos municípios paraibanos, mais também pode ocorrer em toda estrutura política brasileira). Geralmente é assim, um grupo A que ganha as eleições mesmo que o adversário do grupo B tenha realizado um bom trabalho anteriormente, por exemplo, com uma política de atendimento médico satisfatório, aquele vencedor A mesmo reconhecendo este elemento positivo, na sua gestão fará de tudo para não prosseguir com a politica de saúde do adversário. E por que não, se os eleitores tem memória curta e não fiscalizam? Melhor deixar as barbas de molho do meu "inimigo" político e garantir a reeleição.

Antes do compromisso vem a devoção! Este é o cenário que assistimos, há pouca presença das instituições mácula a estrutura política de nossas cidades, no que pese também a falta de consciência política dos eleitores, que veem o processo eleitoral com alienação, fanatismo e sem compromisso com o futuro. Enxergar nas prefeituras "cabides de emprego" por quatro ou mais anos, é um grande "pecado social". O cerne do processo político é dinâmico e sem personagens ou famílias eternizadas no poder. Aliás ao que parece a maioria das nossas cidades não oferece uma "terceira via"  (um terceiro candidato que ofereça propostas imparciais e livres de interesse patrimonialistas ou coronelísticos) ou política alternativa como ocorre nas capitais dos Estados, por exemplo. Há "sempre" uma dicotomia ou rixa entre duas famílias ou grupos que disputam para além de suas propriedades particulares os cargos públicos, inclusive prometendo torná-los espaços de interesses privados. E a violência pela política(gem) se propaga de diferentes formas e pelos quatro cantos ...

E o povo acompanha ... " povo marcado, êh! Povo "feliz"  ".