quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Aos mestres com carinho ...

Pesquisa mostra a importância que a qualidade do professor tem no futuro...



Para iniciar as travessias pelos meandros do pensar em 2012 nada mais imaculado do que direcionar nossos olhares sobre nossos mestres e sobre o futuro que eles lapidam todos os dias a partir do trabalho com as crianças, jovens e adultos sejam nas primeiras letras ou até na construção das teses perpassadas pela originalidade que tanto se cobra nas pós-graduações que merecem idoneidade pelo mundo afora. É verdade que pesquisas que constatam a importância do professor para construção de uma sociedade justa, educada (não "civilizada" nos moldes eurocêntricos) e garantidora de oportunidades não deve se resumir apenas às cifras numéricas (em euro, real ou dólar $$$) como faz pensar a pesquisa noticiada esta semana no Jornal Nacional (23.01.2012), mais constatar também o valor que a educação tem para garantia de uma cidadania plena.

Desde os gregos na Antiguidade Clássica que a preocupação com a formação humanista e com os destinos do homem se voltaram para a paidéia (de paidos - criança, que deu origem a palavra pedagogia - paidagogia em grego), a cultura construída a partir da educação. Era o ideal que os gregos cultivavam do mundo, para si e para sua juventude. Para o filósofo Platão "(...) a essência de toda a verdadeira educação ou paideia é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento".

Não é de se admirar que o Ocidente (assim como os Orientais) legaram o valor da educação como um ícone na construção da maturidade humana. Mesmo em tempos "pós-modernos" a sacralização do ofício de educar e da dádiva do educador são (ou devem ser) sementes vivas do nascimento e da descoberta da vida. Essas realidades não são novidade para ninguém. Lamentavelmente em tempos mercadológicos (sob a lógica capitalista), os valores aqui ressaltados se perdem frente a outras perspectivas menos importantes, como, por exemplo, o mídia, a moda, o consumo, o prazer desmedido, o individualismo, a corrupção etc.

Em termos locais, particularmente no Brasil, a educação nunca teve o valor merecido, nem muito menos os mestres, educadores, professores ... (afora os adjetivos pejorativos que comumente rotulam a profissão). Com a Constituição de 1988 há um certo avanço na conquista dos direitos de cidadania pela construção de um Estado de Direito Democrático que aparece a partir das políticas públicas que procuram minimizar as dificuldades de acesso à educação, no entanto, há com isso uma grande tensão entre a democracia e o capitalismo, que perpetua sob formas muitos dissimuladas a tradição fortemente autoritária e excludente no nosso país. Daí porque não se falar em termos de Brasil em um modelo de Estado do Bem-Estar Social, que pudesse prestigiar a educação, saúde, segurança, emprego etc. como prioridades de governo, o que tivemos em seu lugar na verdade foi a concretização de um avanço institucional sob limitações estruturais baseadas na regulação pública do mercado, na participação da sociedade civil na gestão pública e na "universalização" de direitos civis, políticos e de alguma forma sociais.

Se não temos bons salários para os professores e nem melhores oportunidades de qualidade de trabalho é porque o governo apesar das altas cargas tributárias (que não são repassadas à população por meio de benefícios sociais) ainda pena com os altos índices de corrupção e desregulamentação, além dos desvios de verbas públicas, corporativismos, nepotismos, clientelismos, assistencialismos etc. Com uma máquina tão podre, como podemos cobrar do Estado solução para o problema da defasagem na educação e da falta de estímulo dos nossos mestres? Como afirma o sociólogo Wanderley Guilherme dos Santos no máximo temos uma "cidadania regulada" (restrita a certas camadas da população).

O pensador francês Pierre Bourdieu já mostrava seu pessimismo quanto ao sistema escolar que temos nos moldes capitalistas, pois aquele não oferece acesso democrático e nem a competência cultural para todos, na verdade, tende a reforça as distinções entre as diferentes camadas sociais que se reproduzem, também com os educadores, principalmente aqueles que precisam ter dois ou três contratos de trabalho para complementar a renda devido os baixos salários (e onde ficam: a qualificação, a reciclagem, as oficinas pedagógicas etc.?). A cobrança de um sistema escolar que não compreende as diferenças institui um tipo de violência simbólica, diria Bourdieu, pois em uma sociedade ainda hierarquizada e injusta como a nossa, não são todas as famílias que possuem a bagagem cultural e letramento para se identificar com os ensinamentos escolares da forma como são mecanicamente oferecidos. É preciso pensar sobre a realidade macro-escolar, não apenas a partir do aparelho orçamentário e publicitário, mais acima de tudo estrutural.

Salvar o processo de ensino-aprendizagem no Brasil, deve começar com a valoriza dos professores que temos, afirmou a pesquisa realizada nos EUA (notícia do Jornal Nacional). Ou como se diria nos tempos da minha avô "Aos mestres com carinho ...".