sábado, 5 de novembro de 2011

A Alteridade e a oração ao Deus desconhecido - Friedrich Nietzsche





Com o objetivo de pensar sobre alteridade, o filósofo Nietzsche nos oferece uma contribuição impar, a partir da frase abaixo e da Oração ao deus desconhecido!

"Não é errado bater com uma pedra em uma porta que não tem campainha, assim pensam os mendigos e todos os necessitados, mas ninguém lhes dá razão." Friedrich Nietzsche


Nas minhas aulas de Antropologia Jurídica procuro despertar nos estudantes para a capacidade que o campo reflexivo e mágico da zetética jurídica propõe, a partir de elementos muito próximos da realidade hodierna, principalmente quando se atravessam os meandros entre a realidade da sociedade e do Direito. Entre esses espaços de reflexão estão questões como o problema da alteridade. Este é por assim dizer um dos aspectos teórico-metodológicos mais expressivos das Ciências Sociais, particularmente da Antropologia.

Alteridade enquanto reino da significação dos espaços entre "eu e o outro", cujo aspecto passou a ser incorporado por aquela Ciência a partir do séc. XX com a escola funcionalista de antropólogos como Malinowski, afinal costuma se dizer que com Malinowski e Radcliffe-Brown aparecem os percussores do funcionalismo na Antropologia moderna. Aquela corrente procura explicar aspectos da sociedade em termos de funções realizadas por instituições e suas consequências para sociedade como um todo. É uma corrente sociológica associada à obra de Émile Durkheim.

Assim, ainda no campo da alteridade, influenciado pela Antropologia Cultural se parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende sozinho. Assim, como muitos antropólogos e cientistas sociais afirmam, a existência do "eu-individual" só é permitida mediante um contato com o outro (que em uma visão expandida se torna o Outro - a própria sociedade diferente do indivíduo). É de um antropólogo famoso F. Laplantine, que nasce uma afirmação fundamental sobre o tema:

“A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que consideramos ‘evidente’. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não tem realmente nada de ‘natural’. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única.”

Isto significa que as condições históricas e sociais que determinam as instituições sociais, devem reproduzir os valores e as culturas de cada povo e de cada costume, mas é preciso considerar "sempre" a condição do outro, do diferente de nós. Se há visivelmente uma tendência que se avizinha para uma normatividade baseada no Pluralismo Jurídico, é porque se procura salvaguardar os interesses e necessidades de grupos sociais minoritários (até "diferentes de nós") como negros, crianças e adolescentes, índios, idosos, homoafetivos, mulheres etc., pois estes devem ser incorporados a valorização das relações (multi)culturais como os demais.

Ao propor a oração ao Deus desconhecido, Nietzsche celebra não o cristianismo ou qualquer outro credo, mas abraça o respeito a uma Entidade que para ele é "desconhecida" enquanto experiência pessoal. No entanto, reconhece em Deus o sentido de sua existência. A alteridade, neste caso, começa com o reconhecimento da existência do Outro (Deus, sem conexão com qualquer religião), mesmo que esse Outro seja diferente dele (o filósofo Nietzsche). Uma prova autentica de fé sem religião, de valorização do diferente "ter fé em ..." (religião) de "experimentar a ..." (proposta nitzcheana), que exige reconhecimentos mútuos.

Desse modo, saudável é parafrasear Nietzsche, dizendo, chega de ninguém dar razão aos mendigos e necessitados.