domingo, 15 de maio de 2011

"O INFERNO SÃO OS OUTROS!"





Sempre gostei de música country americana, particularmente algumas músicas como "If Tomorrow Never Comes" de Kent Blazy e Garth Brooks. Lembro que fazem alguns anos, na época dos meus estudos para seleção do mestrado, quando não tinha grana para pagar um curso de inglês para prova de proficiência (não que hoje tenha grana sobrando), acabei fazendo algumas traduções de pequenos textos e músicas como saída frente às minhas necessidades. Uma das musicas que fiz tradução (mesmo sem domínio da língua inglesa) foi exatamente "If Tomorrow Never Comes" que me marcou muito com aquela mensagem tão bela e significativa da letra dos norte-americanos Blazy & Brooks.

Rememorando um pouco do passado, acabei por criar hoje uma modesta leitura sobre as entrelinhas deste texto a luz do pensamento de Jean-Paul Sartre. Afinal se os dias passam, e descobrimos quantas coisas passaram sem nos darmos conta e sem aproveitar as oportunidades de expressar o que somos e o que sentimentos em relação aos outros, é que, como diria aquele filósofo francês "O INFERNO SÃO OS OUTROS!".

Na música encontramos trechos como:

"'Cause I've lost loved ones in my life
Who never knew how much I loved them
Now I live with the regret
That my true feelings for them never were revealed
So I made a promise to myself
To say each day how much she means to me
And avoid that circumstance
Where there's no second chance to tell her how I feel"

(Tradução)
"Eu já perdi pessoas em minha vida
Que nunca souberam o quanto eu as amava
Agora eu vivo com o remorso de que
Meus verdadeiros sentimentos por elas nunca foram revelados
Então eu fiz uma promessa a mim mesmo
Dizer a cada dia o quanto ela significa para mim
E evitar aquela circunstância
Onde não há uma segunda chance para dizer o que eu sinto".


Quem nos ajuda a entender este trecho é o filósofo Jean-Paul Sartre (1905—1980), famoso por sua filosofia existencialista e por ter se recusado a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1964. Aquele pensador francês, foi ativista dos direitos humanos e dos movimentos estudantis na Universidade de Sorbonne em Paris durante maio de 1968, época de grande contestação dos padrões moralistas da sociedade francesa e contra o governo conservador do general Charles de Gaulle. Para filosofia contemporânea, Sartre instrumentaliza sua abordagem baseando-se numa filosofia que afirma o Ser humano pela sua existência que precede a essência, pois, nesta perspectiva o homem primeiro existe, depois se define, enquanto todas as outras coisas do mundo são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma "essência" posterior à existência.

Neste sentido, quando pensa a idéia de liberdade, a filosofia sartriana não se prende a elementos externos e nem a valores sobrepostos (nem tão pouco às instituições sociais, nem aos valores da Igreja e nem a moralidade convencionada), assim como o filósofo Nietzsche defendia que já não havia a existência de um ente divino que pudesse justificar os acontecimentos, nem aquilo que se entende por destino, que passava a ser inconcebível, neste caso, o próprio homem seria o responsável por seus atos e escolhas. Para Sartre, nossas escolhas são direcionadas por aquilo que nos aparenta ser o bem, especialmente daquilo que o Ser humano entende representar o bem e assim tendo consciência de si mesmo. Em outras palavras, para Sartre, o homem é um ser que projeta-se enquanto deus. No entanto, ele tem ciência de que este mesmo homem sofre com suas limitações humanas (por exemplo, a morte) ao encarar o mundo, após descobrir sua essência.

É com a liberdade que o homem projeta sua capacidade de fazer escolhas, mais também de reconhecer suas limitações, principalmente de natureza física. Destas limitações humanas estão a capacidade humana de fazer (racionalmente) as escolhas, pois neste exercício está o fato do Ser humano determinar suas escolhas como sendo corretas e como representação do que seja bom.

Ao vermos na música "If Tomorrow Never Comes" a angústia interior do personagem que sussurra na calada da noite dizendo: "Algumas vezes tarde da noite, fica acordado observando ela dormir, pois, Ela está perdida entre lindos sonhos, Então eu apago as luzes e me deito na escuridão, E pensamentos passam por minha cabeça: E se eu não acordar amanhã? Será que ela terá dúvidas de que a amei, Com todo o meu coração?" - nos faz lembrar que o medo de não expressar os sentimentos às pessoas amadas em vida é um momento sublime de encarar as angústias que povoam o Ser humano durante sua existência. Afinal, quando Sartre propõe que a essência do homem nasce daquilo que é sua existência, ele defende que a liberdade é o exercício desta construção cognitiva, que começa com o outro e não com nós mesmos. Ninguém se faz sozinho no mundo, por mais que a filosofia existencialista não acredite em Deus e nem na moralidade mundana, ela (a filosofia de Sartre) deseja que o Ser humano em todas as suas escolhas individuais levem à transformação do mundo para que o homem se adapte ao seu projeto. Isso quer dizer que cada pessoa tem um projeto diferente, e isso faz com que as pessoas entrem em conflito com os projetos de vida alheios, mas que com isso não signifique uma proposta de vida individual em detrimento dos outros.

No entanto, apenas através dos olhos de outras pessoas é que alguém consegue se ver como parte do mundo (daí a angustia do personagem da música de Blazy & Brooks em expressar seus sentimentos a mulher amada, aos amigos e aos entes queridos). Sem a convivência, uma pessoa não pode se perceber por inteiro, a realização do Ser enquanto Humano, não está nas roupas de grife, nos cartões de crédito, nos carrões importados, nas futilidades e nos consumos (por vezes aparentes), ou no uso particular da coisa pública (como fazem alguns parlamentares, governantes, "religiosos", apadrinhados etc.), mas na concretização de um projeto pessoal do que sou e serei com o passar dos anos, principalmente quando reconhecemos que é o outro que terá condições de afirmar o que fomos e quem somos.

A filosofia existencialista de Sartre nos ajuda a pensar a partir da música (ver video acima) "If Tomorrow Never Comes" de Kent Blazy e Garth Brooks, que só através dos olhos dos outros podemos ter acesso a concretização de nossa própria essência, ainda que efêmera. Só com a convivência somos capazes de ter alguma certeza de que estamos fazendo as escolhas que realmente desejamos. Quando Sartre afirmou "o inferno são os outros", este propõe que, mesmo que os outros impossibilitem os nossos projetos, colocando-se sempre no caminho, não podemos evitar a convivência como forma de descoberta de nossa própria essência no existir.

Aliás, a fórmula é simples, mesmo frente ao problema de quão complicada é a filosofia sartriana, vamos a ela então, para que possamos descobrir na existência nossa própria essência, digamos a amada, aos pais, aos irmãos, aos amigos etc.: "So tell that someone that you love, Just what you're thinking of, If tomorrow never comes" - (Então diga a quem você ama, O que você pensa dela, Pois pode não haver amanhã).