sábado, 19 de fevereiro de 2011

Vampiro doidão é musica de contestação, diria Heidegger!!

















Outro dia ouvi a música "Vampiro Doidão" e comecei a imaginar em quais condições e sentidos aquela letra saiu da cabeça de alguém "de consciência", no entanto, após tantas especulações resolvi questioná-la a luz do pensamento filosófico que trabalha a questão fenomenológica e hermeunêutica que se esconde por trás daquelas palavras. Para fazer essa esperada leitura recorri ao filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), representante da filosofia fenomenológica e da tradição metafísica Ocidental a partir de sua obra "Ser e Tempo" (Sein und Zeit)que se propõe a refletir sobre a questão ontológica, ou seja, a questão do ser, principalmente, segundo sua principal tese, de que há uma ausência de reflexão sobre o ser na filosofia ocidental. Como forma de re-interpretar a cons-ciência dos homens, Heidegger propõe a categoria "da-sein" (em alemão "ser aí" - no mundo) como forma de contemplar e compreender o ser e a natureza do ente, cuja forma de expressão filosófica se encontra na poesia e na linguagem que se manifesta no encontro com o ser.

Ao ouvir a poesia (Vampiro Doidão) como uma linguagem que remete a contestação cultural (social) do "maluco beleza" - Raul Seixas, pensamos que a (re)leitura do Raul sobre o mundo (re)significa uma externalização da liberdade de expressão e criação frente a ausência de preocupação com a questão do ser e de ênfase sobre as preocupações do mundo (p. ex. a moral e as convenções sociais), pois desde os tempos remotos interessa mais aos homens saber de suas práticas do que dos seus valores, só na expressão da(s)linguagem(ns) as coisas se revelam em sua essência, afinal aquele filósofo alemão já teria afirmado que "a linguagem é a morada do ser".

Aproveitemos a música para pensar na poética "engraçada" e "proibida" como uma alegória contestatória!!



Puta que pariu
Meu gato pôs um ovo
Mas gato não põe ovo, puta que pariu de novo

Sou vampiro doidão
Sou vampiro doidão
quero morrer
todo peladão

Chapeuzinho Vermelho, menina tão Legal
fumou um baseado
e liberou pro lobo Mal

Eu sou o Vampiro Doidão
Vampiro Doidão
Eu passo o dia dormindo,
e de noite eu fumo um baseadão

A princesa Isabel,
que se amarra num negão
fumou um baseado e aboliu a escravidão.

Sou vampiro doidão
Sou vampiro doidão
de dia eu durmo e
de noite eu fumo um baseadão.

Dom Pedro Primeiro,
rapaz inteligente
fumou um baseado e nos deixou independente.

Sou vampiro doidão
Sou vampiro doidão
só faço sexo
dentro do caixão.

Diego Maradona,
que joga na Argentina
não sabe se é crack ou ainda é cocaína

Sou vampiro doidão
Sou vampiro doidão
só bebo sangue
de menstruação.

Tava na esquina,
fumando um baseado
chegou a polícia e me levou pro delegado

Sou vampiro doidão
Sou vampiro doidão
de dia eu durmo e
de noite eu fumo um baseadão.

O meu pai tem um carro
que é movido a gasolina
mas como eu não tenho carro sou movido cocaína

Sou vampiro doidão
Sou vampiro doidão
de dia eu durmo e
de noite eu fumo um baseadão.

Até Santos Dummond
que era um grande caretão
fumou um baseado e inventou o avião.

Sou vampiro doidão
Sou vampiro doidão
de dia eu durmo e
de noite eu fumo um baseadão.

Na casa da minha vó
não tinha um baseado
fiquei desesperado e fumei capim com cravo.

Sou vampiro doidão
Sou vampiro doidão
soy muy locão
e overdose é bão.

Garotinha linda
eu gosto muito de você,
mas o que eu gosto mesmo é de L S D!

Sou vampiro doidão
Sou vampiro doidão
eu fumo todas
e não abro mão.

Humberto é meu amigo
Humberto é meu colega
Eu vou fazer com ele o que o cavalo faz com a égua.

Não sei como é que eu posso
não sei como eu pude
comer caco de vidro e cagar bola de gude.

Quando eu morrer
não joguem flores no meu caixão
pode botar maconha que é pra eu subir doidão

Sou vampiro doidão
Sou vampiro doidão
de dia eu durmo e
de noite eu fumo um baseadão.

(Vampiro Doidão - Raul Seixas)

Os "três porquinhos" da teoria social para pensar o mundo do trabalho





















Nestes últimos tempos venho dirigindo-me às leituras de uma abordagem da teoria sociológica no meu doutoramento para tentar recuperar categorias imprescindíveis do mundo capitalista e das relações que envolvem as instituições sociais no âmbito da política, do trabalho e do direito (social) o que tem sido uma experiência de crescimento e aprendizado cada vez mais significativa. Nessa esteira, ano passado fui motivado a participar do VI Congresso Internacional de Estudos Comparativos organizado por minha amiga e mestre da literatura comparativa, a indiana, P.H.D em literatura inglesa Sudha Swanakar, naquele oportunidade pensei em abordar comparadamente uma discussão que pudesse envolver a sociologia do trabalho, desta modesta experiência consegui produzir um pequeno ensaio apresentado e publicado por ocasião daquele evento, o qual passo a transcrever algumas poucas passagens, não como um tratado de sociologia, mas como um texto com alguns apontamentos sobre a leitura em teoria social acerca do trabalho no contexto capitalista.

Desse modo, acreditamos que na lógica capitalista, a teoria marxista (Karl Marx) de natureza dialético-materialista daria sua contribuição ao propor uma lei fundamental de transformação de uma sociedade que está vinculada ao desenvolvimento de suas forças produtivas, estando associado às relações de contradição na produção, que tornam possível a constituição de diferentes classes sociais, inclusive antagônicas socialmente, pois produzem alienação a partir do processo produtivo. Neste sentido, o que determina as condições sociais da consciência do homem, segundo Marx, é a produção da vida material, resultantes do trabalho, quando afirma que: “O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência”.

Em Émile Durkheim a divisão social do trabalho é constituído como elemento imprescindível para entender o papel funcionalista da sociedade, onde as relações de trabalho e o papel político devem ser concebidos pelo sistema corporativo da sociedade. Essa condição social permite que o indivíduo não produza seu trabalho a partir da singularidade, mas como a condição em que o homem está inserido numa realidade social objetiva, que, encontra-se acima dele, entendido como sendo uma realidade grupal e coletiva controlada pelos fatos sociais, inclusive demonstrando que os fatos sociais existem por si, externos aos indivíduos e que no interior de cada grupo social ou sociedade existem formas padronizadas de conduta e pensamento baseados em categorias definidas. O fato social é caracterizado no entendimento durkheiminiano a partir da coercitividade (imperatividade), da generalidade (generalidade social) e da exterioridade (relação ao indivíduo). Dentre as expressões dos fatos sociais as relações de produção também manifestam a natureza objetiva e legitima. As categorias se definem pelo tipo de solidariedade social visto que esta seria a forma de manter a coesão social.

Já em Max Weber, entende que o trabalho, a religiosidade e a racionalidade estão sendo articulados no contexto capitalista a partir da ação humana, que pode ser interpretado com base nas ações do grupo em que o individuo está inserido. Para tanto, acreditando que a vocação para o desenvolvimento pessoal e para o trabalho é acessível com base na perspectiva da lógica calvinista, aquele sociólogo defende que o elemento básico para o desenvolvimento do indivíduo está associado ao profundo isolamento espiritual em relação a Deus, que do ponto de vista prático representa a racionalização do mundo e a eliminação do pensamento efêmero como meio de salvação, apenas uma vida guiada pela reflexão continua pode combater o estado natural das coisas, elemento que inaugura a racionalização para uma tomada de crença a partir da tendência ascética.

Acredito que um elemento instigador para pensar sobre as dinâmicas do trabalho e suas implicações no mundo contemporâneo é entender o pressuposto teórico de cada pensador social que mencionamos aqui, ou seja, a dimensão do trabalho em Marx (dialética – luta de classes), em Durkheim (solidariedade social) e em Weber (relação social – vocação – puritanismo). Um fenômeno social que interessa na dinâmica do capitalismo particularmente no processo de acumulação de capital, que pode e deve ser pensando a partir da abordagem de teóricos, popularmente chamamos os “três porquinhos” da sociologia clássica como Marx, Durkheim e Weber.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Relojoaria e o tempo




















Iniciando as escritas em 2011 trouxe o poema "Relojoaria" de Solivan Brugnara para pensarmos acerca das impressões sobre o tempo, uma mutabilidade "formalista" criada pelos medievais para mensurar as ações cotidianas e o trabalho humano, que frente aos tempos frenéticos e "corridos" de hoje (trazidos pelo estilo "informalizado" das condutas "pós-modernas ou líquidas" (Giddens e Baumann) e estilos de vida impregnados dos costumes capitalistas [consumistas] como afirmou Cas Wolters) desafiam todos nós como nos tempos dialéticos e pré-socráticos do pensamento heraclitiano.

Vamos pensar! "O tempo não pára", como diria Cazuza? Ou será que nós é que não queremos que o tempo pare (afinal, nós é que criamos o tempo [formalmente falando])?



RELOJOARIA


Impossível saber que horas são numa relojoaria
Discordantes, vaidosos, pretensiosos
Os relógios marcam horas divergentes.
Faz anos que libertei meu braço desta coleira
Detesto mesmo os corretos, os precisos
Seu meio-dia não é o meu meio-dia
Nem meu sono, termina em algum ponto programado
E estridente da manhã.
Porém, tenho certa simpatia pelos relógios parados
Errados sempre
Salvo, por um instante, por um segundo
Durante o dia no qual estão certos.
Um certo, que tem a beleza do acidental
Do impossível que acontece
Como o exato lance ou arremesso longínquo
O perfeito ocorrido de um acaso mágico.

Solivan Brugnara