sábado, 22 de maio de 2010

A violência campinense no banco dos réus
























A fim de superar esse beco sem saída da sociologia e das ciências sociais em geral, é necessário deixar clara a inadequação de ambas as concepções: a de indivíduos fora da sociedade e, igualmente, a de uma sociedade fora de indivíduos” (Norbert Elias).





A violência urbana tem sido tema de significativos debates na sociedade brasileira, perceptivelmente em vista do agravamento dos índices de homicídio, delinqüência infanto-juvenil, tráfico de drogas e suas conseqüências, tráfico e exploração sexual infanto-juvenil, violência contra o gênero feminino etc.


Neste dia 22 de maio participei de um debate no Jornal Integração da rádio Campina FM (93.1), referente à violência em Campina Grande, naquela oportunidade apontei juntamente com os demais participantes alguns elementos que perpassam as causas da violência e as alternativas de segurança pública. Evidenciou-se a questão dos indicies estatísticos oficiais, que foram lembrados por um dos participantes (vereador e delegado da cidade), sobre a disparidade da verba destinada aos investimentos na segurança pública no Nordeste, que segundo notícia veiculada no Jornal da Paraíba (21.08.2008), enquanto o Rio Grande do Norte investe R$ 19,296 milhões e Pernambuco investe número de R$ 705 milhões anuais, a Paraíba recebe investimento de apenas R$ 2,929 milhões anuais. O que torna a política de segurança publica na Paraíba em situação bastante precária, com conseqüências alarmantes: baixo contingente policial, baixos salários, carência de infraestrutura (viaturas, delegacias, armamentos, recursos de investigação etc.). Desse modo, ao revelarem-se dados como o “Mapa da Violência – Anatomia dos homicídios no Brasil” do Instituto Sangali de São Paulo, que apresenta João Pessoa como a 4ª capital mais violenta do país, e Campina Grande que ocupa a 4ª posição no Estado em índices de homicídio, inclusive tendo a região munícipe ocupado a 10ª posição no ranking das cidades brasileiras com mais homicídios na faixa etária até 19 anos, se percebe que os dados, mesmo não servindo de parâmetro determinista para entender os fatores sociais da violência, é possível vislumbrar o alerta e referencial que a partir destes registros estatísticos se pode vislumbrar sobre as mudanças e as carências sociais que passam pela população brasileira e campinense.


No entanto, é preciso considerar que a violência não é um problema isolado, ele nasce e se desenvolve em função de outros elementos agravantes, carências sociais como educação, trabalho, lazer, moradia etc., fazem parte de um grande contexto que determina os níveis de violência urbana que temos em cada sociedade, particularmente hoje naquelas cidades que estão em processo de industrialização. Que neste caso, não garantem necessariamente os direitos e a proteção social, mas criam um sentimento coletivo de marginalização, indiferença e amoralidade frente aos acontecimentos, como, por exemplo, ao se ter quase todos os dias manchetes de capa nos jornais locais noticiando homicídios particularmente contra jovens envolvidos em drogas, o que acaba se tornando aos olhos da opinião pública uma situação de banalização, conformismo e indiferença frente às cenas tão freqüentes divulgadas nos meios de comunicação, o que só reforça a omissão dos órgãos governamentais frente à violência.



Fui indagado sobre a participação da polícia no combate à violência, não repliquei. O ente governamental com seu poder de polícia não dá conta do recado sozinho, mesmo que tenha investimentos massivos, a solução está na rede social, na teia de relações que fazem o ambiente urbano comum em diferentes sentidos e significados, ou seja, procurando envolver e entender a lógica de funcionalidade da sociedade em suas diferentes composições, centro, periferia, privado, público, favela, metrópole etc., procurando ouvir e entender o sujeito social que criou e está inserido nessa teia de relações e procurando suas necessidades, seus anseios, suas sugestões etc. Talvez a experiência da polícia pacificadora do Rio de Janeiro, seja uma tentativa de experiência neste sentido, onde se procura ouvir o cidadão “favelado” sobre seu universo social, para criar planejamentos estratégicos sobre a realidade local.



Reza o art. 226, & 8º da Constituição da República que “O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações”. O legislador constitucional acerta em cheio quando indica o núcleo institucional das relações sociais à família, no entanto, ela como o Estado e a sociedade civil devem oferecer sua parcela de contribuição em conjunto, como uma teia de relações sociais, caso contrário, não se pode evidenciar direitos, conforme preceitua a proteção integral no tocante a infância e juventude no Estatuto da Criança e do Adolescente. Uma das boas oportunidades de pensar a questão da violência urbana é entendê-la a partir da leitura sociológica de Norbert Elias a partir do processo civilizador, quando este lembra que existem teias de interdependência na sociedade que indicam as coerções ou forças sociais originarias da própria teia de interdependência formada pelos indivíduos, sendo assim, a violência é um elemento constituído pela própria sociedade, como instrumento de autocontrole, para que a sociedade “civilizada” imponha padrões de controle das condutas.


Nesse sentido, o problema é que na sociedade contemporânea quem dita as normas e os padrões de comportamento é a classe “civilizada” (as classes alta e média) e seus padrões acabam sendo o referencial, o que incute na cabeça dos demais indivíduos da sociedade de que os “favelados” ou “marginalizados” por mais que trabalhem, lutem e tentem se emancipar não alcançarão os valores ditados como norma, a violência que se reflete nas drogas, nos homicídios, nos assaltos etc., é reflexo dessa sociedade institucionalmente regrada por padrões vindos verticalmente de cima para baixo. Continuo afirmando que nossas instituições sociais precisam se aventurar! Ter ousadia de tentar, afinal em temas como a violência, todos os elementos que fazem parte da rede social estão envolvidos na composição dos sentidos da violência, logo, esta não se alimenta sozinha, mas de ações omissas dos diferentes aparelhos e órgãos institucionais, dentre eles, o Estado, a família e a sociedade civil.


Neste julgamento todos nós somos de alguma forma culpados!



(Marcelo Eµfrasıø)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Mater, amor totae vitae!





Neste mês dedicado às mamães, trago dois textos para homenagear cada gesto singelo, suave e bendito da minha mãe, como de todas as mães que assumem de coração aberto tão vocacionada missão. Mãe é amor para toda vida! Postei um texto que fiz sem muitas pretenções, apenas sentimentos, que retratam minha homenagem a esta que me deu a vida, dádiva que legou muitas virtudes para este mundo, além de um soneto sobre "Tuas mãos" de autoria de Abílio de Carvalho, pois assim como o poeta, até pareço sentir suas mãos* contornando meus sonhos, minhas lutas, minha vida e minhas esperanças.



Mater, amor totae uitae!

Dia das mães? Todos os dias é dia de rememorar e celebrar a mãe, de pedir a bênção, de ser gentil e amável, de ter orgulho dos pais, da mãe nem se fala, pois ela caleja, madruga, sente as dores do parto, sem raiva e nem pressa, na calma diária. Adjetivamente amorosa, verbalmente de amor materno, mesmo quando o bolso se cala e a tristeza se encontra nas cores das nuvens.

O tempo não pára, numa fé que não se abala, de uma mãe que não se cala. Ela sempre vivificada e franciscana em todos os seus dias, com uma grande devoção, amável, bela, alegre, de voz mansa no riso e de brincadeiras nas falas que fazem por um instante o mais triste feliz.

Na minha saudosa memória, vi sua aposta nos filhos com uma sabedoria epicurista, mas neste aqui, seu terço suspira numa prece ainda mais feliz! Por isso, minha prece de toda ora, que rogo agora e para toda História: Ó Virgem Santíssima acolhe essa filha que no seu testemunho soube ser mãe, filha, irmã, esposa e guerreira, senhora de gestos singelos e amáveis, que nunca leu teses, memórias e empirismos, mas sabia vive-los sem medo e do jeito, que até hoje luto para ser sem ter nenhuma letra, mas rogo no meu pobre peito que nos meus dias cinzentos que ela seja minha Santinha que viveu na fé de ser pela fé um exemplo de mãe!

* A fotografia ao lado intitulada "Mãos da paz" foi uma homenagem aos meus pais, utilizada na capa do meu segundo livro.

(Marcelo Eµfrasıø)



Tuas Mãos


Mãos frágeis, mãos divinas, mãos pequenas,
leves, espirituais e perfumadas,
cujas unhas são pérolas morenas
nos escrínios dos dedos engastadas.

Mãos que são duas silabas amenas
no poema dos teus braços enfeixadas;
que, estando acima das visões terrenas,
jamais serão por outras igualadas.

Mãos que ostentam, nas formas delicadas
todo o encanto das noites enluaradas
na linda terra que te viu nascer...

E para eu ser feliz basta somente
beijar teus dedos demoradamente
e sob o afago dessas mãos morrer!

(Abílio de Carvalho - Vitória, Espírito Santo. Poeta contemporâneo)