segunda-feira, 16 de junho de 2014

"A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam" - um jogo para hermenêutica da vida






Sublevando a condição humana, nada mais pontual do que um toque preciso com o manuseio da hermenêutica da vida, a partir do exercício de compreensão e interpretação do mundo pelas lentes da contextualização "A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam".

O 'ser' que somos é a linguagem, diria o hermeneuta alemão Martin Heidegger.  Contudo, para que os indivíduos se tornem humanos em sua essência é preciso concebê-los como metafísicos, como produtos e agentes do pensar. Mais também do agir, como defendeu Kant. O agir humano, pressupõe uma conduta marcada pela sua vulnerabilidade, mas também pela coragem de buscar a felicidade a partir da condução de sua trajetória, que não pode estar dissociada da compreensão e interpretação do mundo. Não se trata na modernidade fenomênica heideggeriana de considerar apenas a máxima medievalista "agere sequitur esse" (o agir segue o ser), mas incorporar junto com a hermenêutica filosófica o próprio sentido do homem, uma vez que cabe a ele, enquanto ser privilegiado ser compreendido na totalidade. Heidegger denominou essa figura simbólica de ser-aí (Da-sein), isto é, aquilo que representa o ser humano posto na realidade cotidiana, aberto às interpretações, indissociável do (no) mundo.

Este homem heideggeriano está envolto de suas lutas, marcado pelos exercícios de (re)significações e interpretações sobre a vida.

Metaforicamente cada pessoa humana hospeda dentro de si uma 'águia'. Acaba sentido-se portador de um projeto infinito. Deseja quebrar paradigmas, inclusive os limites de sua condição existencial. Existem diferentes movimentos na conjuntura política, econômica, educacional e na realidade enfrentada por cada um que pretendem reduzir os indivíduos a simples 'galinhas', figuras frágeis, presas nos limites do terreiro. Como é possível aos indivíduos dar asas a 'águia' (tornando-se além de leitor, também co-autor), alcançar as alturas, inserir a figura simbólica da 'galinha' na condição de heroína em sua própria trajetória senão a partir do exercício de (re)significação de sua condição (humana)?

Para quem anda procurando interpretar os fenômenos jurídicos e as conjunturas sobre a realidade política, social etc., particularmente os que se encontram desmotivados ou presos por amarras, por vezes, da incompreensão/intolerância nos limites da (in)segurança jurídica, recomendável o olhar simbólico e intimista do teólogo e filósofo Leonardo Boff em seu livro "BOFF, Leonardo. A águia e a galinha: Uma metáfora da condição humana. 12ª Ed. Vozes. Petrópolis, RJ. 1997".

sábado, 7 de junho de 2014

A Sabedoria de São Francisco de Assis - diácono dos pobres




Minhas modestas impressões sobre a sabedoria teológica e antropológica de São Francisco de Assis.


A sabedoria de São Francisco de Assis (1182-1226), diácono da Igreja, que viveu em tempos medievais é sacramentalmente representada pela dimensão do serviço. Vivencia o serviço a partir de sua entrega pelo amor e caridade aos pobres. Enquanto modelo de servidor (diaconia, do grego διάκονος "ministro" ou "servo"), manifesta sua missão mediante um grande desafio, a edificação da comunidade por meio dos pobres, no testemunho de doação e partilha pelos pobres, por meio da caridade. Além do constante exercício da dimensão espiritual, através do culto e da reflexão evangélica, no seguimento do Cristo e na atividade edificante de testemunhar o amor de Deus.

Sua vocação se confirma ao escutar e atender o clamor do Altíssimo: "Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está em ruínas". Doravante sua missão evangelizadora de humanizar a comunidade eclesial e o mundo feudal,  Francisco enquanto diácono, exerce seu ministério do serviço não com a prática da comunidade (franciscana) em direção aos pobres, mas uma práxis a partir dos pobres, com a vivência e amor com os pobres, com o objetivo de transformar a comunidade e a sociedade tomando como modelo o projeto do Reino de Deus. Anuncia Tiago em sua Carta Apostólica: "Ouvi, meus amados irmãos. Não escolheu Deus os que para o mundo são pobres, para serem ricos em fé e herdeiros do Reino que Ele prometeu aos que o amam?" (Tg 2:5).

O jovem de Assis rememora pelo seu testemunho o amor do Cristo servidor, em um contexto histórico marcado por atribulações e pelas intempéries de um período hostil e banalizado pela usura religiosa e política, quando o espírito franciscano ecoá com o chamado cristocêntrico para o exercício da metáfora do serviço,  simbolizado pelo ato de lavar os pés dos discípulos: "Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também" (Jo 13:15).

Sua missão enaltece a chama dos homens de bom coração, aqueles que perante o mundo são fracos e marginalizados, mas podem colaborar como servos no projeto salvífico de Deus, porque a dimensão franciscana revive também a missão da comunidade cristã, com aquelas pessoas que se inspiram na ética do cuidado e se entregam ao serviço dos pobres. Afinal,  também estes vivem Pentecostes: “até sobre os meus servos (doulous) e minhas servas (doulas) derramarei do meu Espírito naquelas dias, e profetizarão” (At 2.18). 

Numa dimensão antropológica, São Francisco de Assis encarna o exercício da razão (logos), que se instaura "absolutamente" e da paixão (pathos) que comove e coloca os homens de joelhos, pressupõe iconicamente que o homem subverte a alma e se inspira nos bons exemplos de uma vida dedicada às pequenas coisas do mundo, porém reaprendendo o sentido da própria vida nos anos que ainda lhe resta. Sabendo que razão e emoção devem andar juntas em cada instante da efemeridade. 

E das pequenas às grandes coisas que experimenta em cada instante da vida, seu jeito servidor e contemplativo inspira o gênero humano a aprender com os sinais transcendentes neste mundo, desde a mera contemplação de uma aranha que desce no produto de seu longo trabalho, ao esplendoroso encantamento do Sol que abraça o dia repleto de vidas.


Por Marcelo Eufrásio.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Do Welfare State à busca pela felicidade: o sonho de um Natal Feliz






O livro que ganhei de minha cunhada e de seu esposo no último mês de outubro, intitulado FELICIDADE, de autoria do sociólogo dinamarquês Bent Greve é uma excelente obra para leitura e reflexão sobre a sociedade de consumo, principalmente em função de sua tese central remeter-se acerca da compreensão do conceito de "felicidade", a luz de um certo saudosismo pela intervenção do poder governamental na elaboração de políticas públicas eficazes nas sociedades contemporâneas.

Numa época em que o capitalismo global não prima pelo modelo do Welfare State, como motor da tutela das necessidades sociais da população, nem nos países centrais e nem muito menos nos países periféricos, o sociólogo Greve levanta um debate sobre o modelo de sociedade que eclodiu a partir do crack de 2008, que apareceu associado às crises cíclicas do capitalismo, aos fenômenos como individualismo, desemprego, insegurança, esfacelamento dos valores, crises institucionais etc.

Na busca pelo paradigma ideal de "felicidade" para as sociedades contemporâneas, mesmo diante da complexidade de identificação de um modelo de felicidade individual, são apontados elementos importantes para identificá-la, renda, confiabilidade no governo, segurança, saúde e relacionamentos pessoais sólidos são fatores importantes para considerar, mas também inúmeros elementos subjetivos ajudam a compor a inexplicável equação da felicidade. Assim, a felicidade coletiva e individual não deve restringir-se ao Produto Interno Bruto - PIB como mediador da felicidade (equação da sociedade capitalista), pois segundo aquele sociólogo esse caminho de mensuração se mostra ineficiente. É preciso considerar vários outros subsídios para estabelecer um paradigma saudável e harmônico, que estão relacionados a alguns elementos subjetivos do cotidiano que podem ser vivenciados alternativamente, como, por exemplo: "o incremento do autoconhecimento, a possibilidade de se fazer trabalho voluntário, a simples visão de mais policiais na rua e até mesmo o sentimento de pertencer a uma massa, mesmo que seja a dos desempregados, todos esses elementos podem levar o individuo a se sentir mais feliz" (GREVE, 2013, p. 37).

Com foco nos contextos da Europa e nos Estados Unidos, a obra examina como o conceito de felicidade pode contribuir para a compreensão de aspectos centrais da sociedade atual, investigando desde questões relacionadas à análise do Estado do bem estar social até o cotidiano das pessoas. Ao propor diferentes abordagens sobre a categorização e os usos acerca do conceito de felicidade, Greve tem por objetivo oferecer subsídios para uma melhor compreensão sobre as situações que envolvem o termo em questão, principalmente quando tem impactado nas sociedades os motivos que tornam as experiências de vida boas oportunidades para se viver feliz.

Defende Greve (2013) que a felicidade pode se relacionar ao desejo de consumo, isto é, economicamente quando o ter faz sentido para tudo, ou ainda e mais amplamente quando associado a essência do ser, que pode está relacionado com os desejos subjetivos e o estado de espírito de uma pessoa, um momento ou diferentes momentos da vida, que podem repercutir pela vida toda.




Neste caso, é preciso garantir uma melhoria substancial dos usos e interpretações acerca do nível de felicidade, conforme defende:


"[...] Bem estar pode ser descrito como possuir riqueza econômica suficiente, o que torna possível a aquisição de uma vasta variedade de bens e serviços. Bem estar, nesse sentido, tem principalmente um fundo econômico, baseado na ideia de que o benefício que indivíduos retiram de um bem ou serviço é crucial para se entender o que é bem-estar. [...] No entanto, felicidade pode ser entendida , então, como um termo amplo que é experimentado individualmente e tem fundamento, mas que, a partir das experiências é certamente possível medi-lo e alcançar um claro entendimento dele, mesmo no nível da comunidade. Felicidade é, portanto, definida como a percepção que cada pessoa tem de sua vida no passado e no presente e de suas expectativas para o futuro. Há diferença entre o momento de felicidade (por exemplo, ganhar na loteria) e uma felicidade mais duradoura. [...] A felicidade varia no decorrer da vida, e um momento de felicidade pode ser importante para se compreender a vida toda" (GREVE, 2013, p. 68-69;76).


E acrescenta:


"Um alto nível de felicidade para indivíduos e também grupos de pessoas é visto como ideal para se tentar alcançar uma boa sociedade. A boa sociedade é também uma comunidade feliz, e podem-se buscar ações públicas que propiciem alcançar e continuar alcançando uma sociedade feliz, ou ainda mais feliz.


[...] mesmo que uma pessoa tenha sofrido um acidente, ficado doente ou perdido o cônjuge [...] é possível retornar ao nível anterior, ou pelo menos próximo dele, e também refletir sobre a felicidade no decorrer da vida" (GREVE, 2013, p. 179;183).

Numa época atual do ano em que a cultura cristã se aflora mediante o carisma, a fraternidade e a religiosidade, inspirados pela natividade cristã, as reflexões de Bent Greve são oportunas no sentido de provocar os leitores para buscar a médio e longo prazos um modelo de sociedade mais humanista, principalmente ao pensar diferentes aspectos relacionados à felicidade, seja na busca por uma qualidade de vida saudável (exorcizando "o viver para trabalhar" cujo objetivo é o consumismo desenfreado), ou ainda substituindo o valor do ter pela essência do ser ("trabalhar para viver").

Desejo a todos os amigos (as) um verdadeiro Natal de/com muitas experiências felizes, e que esta reflexão inspire cada dia do Novo Ano, principalmente nos distanciando das lições efêmeras.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Dar sentido a cada dia é descobrir o Novo dentro de nós!



Desde a infância devemos ter a mesma pergunta dentro de nós: "o que vou ser quando crescer?"


Comumente estamos preocupados com o tempo, principalmente nas atividades diuturnas que os padrões da modernidade exigem no que diz respeito à vida familiar, trabalho, lazer, descanso e até a vida afetiva. Porém, a humanidade nos últimos séculos, pouco sentido deu a importância que a temporalidade apresenta para as transformações nas convenções sociais, nas sociedades, nas mentalidades etc. Preocupamo-nos em saber quantos anos levam para nossa vida ter progresso financeiro, se nossos filhos serão, um dia, realmente aquilo que nós desejamos que sejam, se teremos uma velhice tranquila  se viveremos até vermos nosso país sem injustiças sociais e econômicas. Como estará a seleção brasileira até chegar a próxima Copa do Mundo?

Com efeito, todos os nossos questionamentos não passam de mera efemeridade e virtude imaginária, pois, na maioria das ocasiões, o que nos preocupa é a transitoriedade do tempo corrido, do imaginário produzido pelos efeitos que o tempo pode ter, por exemplo, nossos traços físicos quando somos criança são sensivelmente transpostos para uma dimensão castigada pelo tempo, quando nos tornamos adultos, essa constatação nos assusta por demais, mas não nos apercebemos que essa passagem transmutação física e psicológica também representa um estágio de amadurecimento intelectual e corporal. Seria um ritual de passagem produzido graças ao efeito da temporalidade com repercussões aparentemente assustadoras, mas com efeitos bastante significativos para a vida humana. 

Conforme defende a tese Cristã e Ocidental do apóstolo Paulo que afirmava (I Cor 13, 11-13):


Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança.  Depois que me tornei homem, fiz desaparecer o que era próprio de menino. Agora vemos em espelho e de maneira confusa, mas, depois, veremos face a face. Agora o meu conhecimento é limitado, mas, depois, conhecerei como sou conhecido.   

Dessa forma, aquelas impressões trazidas, com o passar dos anos, são uma conseqüência do amadurecimento que todos os seres vivos por natureza passam, na verdade, trata-se da própria dialeticidade que está presente em todas as relações que exigem movimento, mudança e transformação, desde o nascer até a morte acontecem as relações opostas que agem na temporalidade em função das transformações. 

Dar sentido a cada dia da vida é o elixir para uma vida feliz. Quando perguntamos: "o que vou ser quando crescer?", estamos buscando "infinitamente" uma resposta desafiadora, que pode se renovar a cada verão ou em cada "passagem de ano [gregoriano, indiano, chinês etc.]" e que se intensifica quando compreendemos que a felicidade vai além de nossas conquistas. Amar é o principal objetivo almejado de quem busca, pressupõe cativar para vida toda. Da infância até os dias atuais, seja em que idade estivermos, amar a si, amar ao outro, amar ao trabalho, amar aos estudos, amar uma "coisa em si" é o sentimento [desejo] de quem pretende ser alguma coisa quando crescer. 

Que nesta nova transmutação (2012/2013) estejamos entusiasmados [sonhar e experimentar] com a "nova" pergunta [a pergunta que se renova]: "o que vou ser quando crescer?". Afinal, o desejo do Novo se realiza a partir da motivação em ver [fazer] o novo se constituindo a cada dia, mesmo que para isto nos tornemos crianças outra vez.

Mensagem de Fim de Ano 2012/2013

sexta-feira, 11 de maio de 2012





O DIA EM QUE TODAS AS MÃES SE FOREM


No dia em que todas as mães se forem será uma tragédia sem precedentes, mais ainda para o “comércio” que vive como um agente parasitário habitando nos primeiros dias do mês de maio, fazendo-nos crer que este mês é exclusivamente o “mês” das mães (e das noivas). Como se pudéssemos seduzir o amor maternal “comprando-o” com presentes de tecido ou plástico.


No dia em que todas as mães se forem os dias serão abandonados e as noites fustigadas, as vidas ameaçadas e os filhos sem vida, pois se a vida é nutrida pelo leite e amor materno.


No dia em que todas as mães se forem não haverá esperanças e nem consolo, pois o milagre da vida só nasce com  as dores do parto que anunciam a semente que nasce, dá fruto e se multiplica.


No dia em que todas as mães se forem Deus não será o mesmo, pois sem o ventre materno suas criaturas não nascerão como milagre divino. Pois se até ELE também precisou de uma mãe.


Mãe é como um Sol radiante que encaminha-nos todos os dias, forte, luminoso e ardente. Por alguns instantes, imperceptivelmente esquecemos sua presença, mas ela sempre onipresente nos pensamentos sobre seus filhos nos acompanha em cada momento. Todos os dias, todas as horas com o cuidado e a força que só uma ligação transcendental se permite.


Marcelo EUFRASIO. (O dia em que todas as mães se forem) 


Escrevo este modesto “arranjo de palavras” (poema acima) para
homenagear as mães, exatamente pelo zelo incondicional de todas
elas. A maternidade irrompe os laços afetivos, religiosos e
transcendes da própria existência do ser. Para o filósofo Emmanuel
Lévinas é possível reconhecer na figura feminina uma importância
subjetiva impar. Sua presença aparece como única possibilidade
de atingir a subjetividade irredutível para explorar a consciência, ou
seja, a subjetividade se constitui na abertura ao Outro.

Este Outro é o infinito que brilha e se abre como uma porta para o
ensinamento. A idéia de infinito consiste em estabelecer uma relação
com aquilo que extravasa o pensamento, mesmo que este não seja
possível mensurar. Neste caso, o infinito se apresenta na figura do
próximo que se aproxima, ou seja, o rosto alheio. Por exemplo, a
figura materna, a primeira e única imagem que pode consolar o bebê
após sua saída do ventre, diante deste mundo assustador
(luminoso e barulhento).

Lévinas recorre ao feminino, pois só as mulheres podem expressar este
rosto na subjetividade que carrega em si o Outro. Para tanto, utiliza o 
termo“MATERNIDADE”. Logo, a maternidade representa na sua filosofia 
esta substituição, em que o Eu gera em si o Outro.

A subjetividade maternal, expressa o gemido das entranhas do corpo
materno, revela essa substituição, onde o Eu é Outro. Para aquele 
filósofo,essa relação maternal entre Eu e o Outro, pode ser representada 
pela expressão “rakhamin” que significa misericórdia, que possui uma
referencia a palavra “rekhem”, que significa útero.

A misericórdia é sentida nas entranhas da mãe, pois seu corpo
estremece e sofre pelo Outro. Este Outro não está só perto como
dentro da mãe. Sua proximidade é tal, que a mãe tem uma
responsabilidade vital, do Eu com o Outro, principalmente de
morrer pelo Outro. Como afirmou Derrida (no livro Emmanuel Lévinas:
La trace du feminin. p. 74): “[...] cercado, sem defesas, pelo próximo, 
assumo essa presença como uma ‘mãe que não pode negar a presença
de seu filho em si’”.

O tema da maternidade na filosofia de Lévinas é uma metáfora da
subjetividade do cuidado de si pelo Outro. No entanto, não pode se
desvencilhar daquilo que destacamos no texto “O DIA EM QUE TODAS
AS MÂES SE FOREM!”. Quando e “se” todas as mamães se forem
deixaremos nós de existir, pois se até “Deus” (como afirmei no poema)
não será o mesmo? Não esquecendo que parte de nós é o ‘eu’ (mãe)
que herdou da genitora seus sonhos, desejos, alegrias, tristezas, dores,
conforto, proteção (...) no ventre materno. Após nascermos o cordão 
umbilical não será rompido, pois a subjetivação é infinita, como o 
valor das mães. 

domingo, 29 de abril de 2012




DIA DO TRABALHO OU DIA DO ÓCIO?

Ironicamente os temas que venho me debruçando nestes últimos anos sempre tem girado em torno da violência e do trabalho. Será que dialeticamente ao ponto que eles estão distantes ao mesmo tempo se aproximam? Ou de que estou lutando por uma perspectiva de garantia do “direito ao trabalho” quando na verdade deveria estar lutando pelo “direito ao ócio”?  

Muitas inquietações, muitas perguntas, poucas respostas, preciso de “ócio” para pensar e pouco trabalho para me ocupar.

Mais um feriado, somado ao final de semana e assembléia. Que venham mais, defenderia Paul Lafargue, genro de Karl Marx, autor de um manifesto intitulado Direito à Preguiça em que estranhava o fato dos operários da época (séc. XIX) serem tão tolos a ponto de lutarem pelo direito ao trabalho, em vez de lutarem diretamente, sem subterfúgios, pelo direito aos privilégios de lazer dos patrões.  

Até a nomenclatura convencionalmente admitida nos calendários para este dia 01 de maio é forçosa e instigante para o labor, quando deveria ser Dia do Descanso e não do “Trabalho”. 

Ao tempo em que nos encontramos imersos numa época “pós-moderna”, perpassados pela lógica da rotina do trabalho e do consumo, perdemos o sentido de um dos bens mais preciosos do homem, o tempo. Os antigos gregos quando instituíram o ócio não foi como sinônimo de vagabundagem, como se pensa hoje, mas exercício do pensar. A palavra ócio em grego psykhagogía significa a condução da alma. Porque o ócio é o momento em que o individuo pára para refletir sobre sua alma. Educar-se. Aliás, educação é formação. Os antigos viam na criança, por exemplo, um animal selvagem que precisava ser educado, formar homens íntegros capazes de olhar de frente para os deuses, ou seja, colocar as crianças a serviço da Criação. A educação atual se volta exclusivamente para formar indivíduos competitivos para o sucesso profissional.   

Na modernidade o valor do trabalho valorizado pelos antigos se perdeu, destinado a subsistência e ao trabalho criador, para eles, o trabalho deveria ser apenas aquele destinado a suprir suas necessidades, o restante do tempo destinado ao culto do trabalho criador. Assim, não há ócio se ele não for criador, já idealizou o cientista do trabalho italiano Domenico De Masi.

O filósofo e terapeuta Viktor Salis afirmou “O homem moderno não sabe mais “ociar”. Se deixarmos sem ter o que fazer, ele se distrai com algo que o anestesie, ou fica numa angustia enorme”.

Nasce uma questão, o que fazer com o nosso feriado, ser escravo da conjuntura, que sugere (impõe) um tipo de lazer (fast food, internet 24 horas, tevê aberta, pagode domingueiro etc.) ou se cria “criativamente o ócio”?

“To be or not to be, that's the question”! 

sábado, 27 de agosto de 2011

Os Dez Mandamentos do Pesquisador/Estudante


















Nestes ultimos meses estou debruçado na construção da fundamentação teórica de minha tese de doutorado, o que parece um caledoscópio de imagens, quanto mais refletimos sobre o ponto, discutimos frente as imagens trazidas no texto, mais apresentam, a cada movimento, combinações variadas e "agradáveis" de efeito visual. É preciso gastar muitos dias e noites ainda!
Paralelo a este "dramático mundo das (in)certezas acadêmicas", encontrei ainda da época que cursava no mestrado a disciplina de Metodologia da Pesquisa "Os Dez Mandamentos do Pesquisador" (autoria desconhecida), que publicizo aos meus orientandos sempre que encontro neles muitas (in)certezas.

Achei por bem, publicá-lo por aqui.


1. Não cobiçarás o tema do teu próximo, porque a grama do jardim do teu vizinho não é mais verde.

2. Não pesquisarás o que está apenas na tua cabeça, a menos que o estudo seja precisamente sobre ela.

3. Não investigarás tema sem fonte, porque a tua tarefa é fazer os dois se comunicarem.

4. Não te perderás em meio à falta ou ao excesso de planejamento, a menos que a tua genialidade te permita prescindir dele.

5. Não desprezarás a rotina, porque ela pode te liberar para o exercício da criatividade.

6. Não menosprezarás as normas, a menos que pretendás transformá-las.

7. Não te julgarás incompetente, porque não o és, até prova em contrário.

8. Não escreverás uma obra-prima, a menos que já estejas maduro para produzi-la.

9. Não farás uma colcha de retalhos, porque és capaz de um trabalho verdadeiramente intelectual.

10. Não ignorarás os teus leitores, a menos que te aches mais importante do que eles.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Entre a PAIXÃO e a RAZÃO - Quem comanda os destinos do homem?


(Antonio Vivaldi - "Summer" from four seasons)




O que há na vida senão emoção (paixão) e razão? A Sociologia já suscitou um debate questionador acerca deste aparente conflito, na sua formulação dicotômica "paixão-razão", que teria provocado até o pensamento sociológico do alemão Max Weber (1864-1920), que já acreditava que "é por meio da paixão ou da fé que o homem se relaciona com os valores" (SAINT-PIERRE, H. Max Weber: entre a paixão e a razão. 2004, p. 9). Assim, a relação do homem com os valores demarca o curso da análise weberiana. Tanto nos trabalhos metodológicos de Weber como nos seus escritos políticos, pode-se notar a tensão permanente entre a razão e a paixão ou fé, o que dificulta ainda mais a análise da já intrincada relação entre ciência e ação no pensamento weberiano.

O que prova a importância e a decisiva complexidade das ciências sociais a partir do século XIX, e, a posição epistemológica (teoria do conhecimento) de Max Weber para entender o homem enquanto alguém que busca e alimenta o conhecimento é seu delineamento quanto a duas condições fundamentais: a erradicação dos juízos de valor do discurso científico e a exigência de verificação empírica dos enunciados científicos por meio das explicações causais. Simplificando as coisas, digamos que, o conhecimento racional é um pressuposto que nasce e (con)vive com o conhecimento passional, ou seja, a paixão (fé) é constituída de um outro elemento valorativo-cultural (a razão), que a partir da realidade é recortada para destacar o objeto de análise (racional) e acaba representando ao longo da vida um "significado cultural" (SAINT-PIERRE, 2004, p. 20).

Neste caso, nossas escolhas não são científicas (juízo de valor = pluralidade de valores e escolhas humanas), mas a análise é produto da racionalidade, que origina os pressupostos do conhecimento científico, nisto, dizemos que razão-paixão são elementos intrínsecos na lógica weberiana. O tipo ideal weberiano, sintetiza a relação entre os limites empíricos para generalização dos resultados, os limites da validade dos próprios conceitos e a vigência dos problemas formulados pelo interesse do sujeito (que determinou esses limites em sociedade, a partir da paixão, mais também da razão), o que a cultura, a religião, o direito etc. determinam como sendo "os valores".

Para ilustrar tão intrínseca relação entre "paixão-razão" não quisemos trazer um exemplo de casal enamorado das novelas etc. (poderia parecer uma babaquice), mas trazer um exemplo musical que tem a narrativa concreta daquilo que a dança harmônica entre as paixões humanas e a racionalidade possuem.

The Four Seasons (Italian: Le quattro stagioni) é um conjunto de quatro concertos para violino de Antonio Vivaldi. Composta em 1723, As Quatro Estações é o trabalho mais conhecido de Vivaldi e está entre as peças mais populares de música barroca. A harmonia de cada concerto é variada, cada um lembra uma temporada. Por exemplo, "Winter" lembra a chuva gelada, enquanto que "Summer" (do vídeo acima) evoca uma tempestade em seu movimento final, razão pela qual o movimento é muitas vezes apelidado de "Storm".

Dos sentimentos humanos da melancolia ou alegria dos fenômenos da natureza, nasce a graciosidade de um concerto, que ora esboça os sentimentos (paixão) ora os desejos e pensamentos racionais da humanidade diante da natureza e de seus fenômenos, por exemplo, como uma tempestade com seus altos e baixos, além dos seus conflitos interiores (por exemplo, quando nascem e se desenvolvem: ciências da natureza X ciências do espírito - humanas). Ao ouvir The Four Seasons (com um pouco de atenção) dá para se perceber a dialética musical entre a paixão e a razão, entre os fenômenos da natureza e do espírito, entre os semblantes singelos (suaves) e os olhares severos (e até de agressivos) dos músicos, lutas entre paixão-razão, que revelam ao longo do concerto a harmonia perfeita da peça de Vivaldi!


Afinal, os pêndulos (paixão-razão) da vida humana vivem desafiando os dias com a enaltação dos sentidos, pois somos todos homens e mulheres buscando o sentido dos nossos destinos na escadaria do mundo.

Boa música a todos!

(M.Eµfrasıø)

sábado, 25 de junho de 2011

Decreto Matinal



Um pequeno poema trazido das entranhas do ser, nestes tempos onde os sonhos se enamoram das tempestades. Neste caso, felizmente a calmaria nasce do encontro dos desejos e dos gestos felizes dos momentos marcantes e dos muitos lugares ... pois a felicidade é um estado de espírito!


DECRETO MATINAL

Fica decretado que não mais acordarei
que as notícias serão maduras
o sol não terá mais orgulho
e a verdade uma constante.
Aquele cinzeiro cheio de tocos abandonados
as vidas serão fustigadas
as ruas ameaçadas
as mulheres descabeladas
os homens moralizados.
Que este decreto viva
como os dias do agosto choroso.

(Marcelo Eµfrasıø)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Tensões políticas e culturais em Rê Bordosa













É com alegria que divulgo a publicação do livro do meu amigo e colega de doutorado Yuri Saladino, pesquisador, historiador e cientista social antenado com os muitos discursos simbólicos que nascem das entrelinhas dos espaços urbanos. Nesta publicação ele trata do universo político e cultural do personagem Rê Bordosa de Angeli. Quem tiver interesse na aquisição da obra: http://www.marcadefantasia.com/resenhas/livros/rebordosa.htm

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O trabalho de Angeli tem suscitado inúmeras investigações acadêmicas, o que confirma a importância de sua criação. Autor de incontáveis e marcantes personagens das tiras humorísticas brasileiras, foi com Rê Bordosa que Angeli criou um vínculo indissociável com seu público, a ponto de, mesmo tendo matado a personagem, ter que retomá-la, numa espécie de memorial ou diário.

O livro de Yuri Saladino, oriundo de sua dissertação de Mestrado, debruça-se sobre a obra de Angeli para estudar a construção artístico-cultural expressa nas histórias em quadrinhos de Rê Bordosa e, por meio delas, refletir sobre o projeto político e cultural do autor. Rê Bordosa surgiu em 4 de abril de 1984 na série de tiras em quadrinhos Chiclete com Banana, do jornal Folha de S. Paulo, tendo como cenário o universo urbano paulistano da década de 1980.

Para Yuri, a personagem é uma sátira sobre o gênero feminino pós-Revolução Sexual, que tinha como pano de fundo um ambiente social bastante efervescente em termos sócio-culturais. O universo “angeliano” do qual Rê Bordosa faz parte reflete sobre esse período, quando o debate entre a modernidade e a pós-modernidade estava na ordem do dia.

Yuri reforça que o cotidiano no qual a personagem se insere é marcado pela crise dos valores modernos e pela fragmentação das identidades culturais que refletia o deslocamento do sujeito moderno e a valorização do momento presente e do hedonismo. Nesse sentido, o estudo reflete em que medida e por qual direcionamento esta personagem, enquanto construção artístico-cultural, representou uma crítica social frente ao contexto dos anos 1980 no Brasil.
Como afirma o autor, a pesquisa discute o caráter crítico do projeto artístico de Angeli, bem como situa Rê Bordosa a partir dos seus diálogos, seu comportamento e seu modo de vida: “Procuraremos analisar a personagem Rê Bordosa como sendo uma problematização sobre esse contexto social e suas tensões culturais”, conclui Yuri.

H. Magalhães