domingo, 10 de fevereiro de 2013

Carnaval do centro à periferia made in Brazil




Depois de tanto tempo de celebração profana do “mundo de ponta cabeça” é chegado o momento de rememorar o(s) sentido (s) que acabou(ram) se diversificando ao longo do tempo, a festa carnavalesca, a festa mais quente do Ocidente, tão quente que pegou fogo quando chegou ao calor dos trópicos, invertendo os papéis. Afinal, ao celebrar 'carnavalis' no Brasil tudo pode, inclusive profanar, amoralizar e banalizar, “pois não existe pecado do lado de baixo da linha do Equador”. A festa da carne ou de adeus à carne desde os tempos medievais, algum tempo depois a Igreja convencionou o tempo de "contrição" na quaresma para "purgar os pecados da carne" praticados no carnaval.




Para pensar sobre as origens históricas da festa carnavalesca extraímos alguns fragmentos interpretativos sob a perspectiva da historiografia cultural (a partir da teoria histórica francesa da Terceira Geração dos Annales), que na verdade acabou traduzindo aquela festa profana como sendo de dois sentidos ou que tenha uma dualidade na percepção do mundo e da vida humana.

Mikhail Bakhtin em seu livro ‘A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento’ afirmou que “Os festejos de carnaval com todos os atos e ritos cômicos que a ele se ligaram, ocupavam um lugar muito importante na vida do homem medieval. [...] O riso acompanhava também as cerimônias e os ritos da vida cotidiana: assim, os “bufões” e os “bobos” assistiam sempre às funções do cerimonial sério, parodiando os seus atos (proclamação dos nomes dos vencedores dos torneios, cerimônia de entrega do direito de vassalagem, iniciação dos novos cavaleiros, etc.). Nenhuma festa se realizava sem a intervenção dos elementos de uma organização cômica, como por exemplo, a eleição de rainhas e reis “para rir” para o período da festividade. Todos esses ritos e espetáculos apresentavam uma diferença notável, uma diferença de princípio, poderíamos dizer, em relação às formas do culto e às cerimônias oficiais sérias da Igreja ou do Estado Feudal. Ofereciam uma visão do mundo, do homem e das relações humanas totalmente diferentes, deliberadamente não oficial, exterior à Igreja e ao Estado; pareciam ter construído, ao lado do mundo oficial, um segundo mundo e uma segunda vida aos quais homens da Idade Média pertenciam em maior ou menor proporção, e nos quais eles viviam em ocasiões determinadas. Isso criava uma espécie de dualidade do mundo e cremos que, sem levá-las em consideração, não se poderia compreender nem a consciência cultural da Idade Média, nem a civilização renascentista. Ignorar ou subestimar o riso popular na Idade Média deforma também o quadro evolutivo histórico da cultura européia nos séculos seguintes. [...] A dualidade na percepção do mundo e da vida humana já existia no estágio anterior da civilização primitiva. No folclore dos povos primitivos encontrava-se paralelamente aos cultos sérios (por sua organização e seu tom) a existência de cultos cômicos, que convergiam as divindades em objetos de burla e blasfêmia (Riso Ritual); paralelamente aos mitos sérios, mitos cômicos e injuriosos, paralelamente aos heróis, seus sósias paróticos”.

Já para Peter Burke no livro ‘Cultura Popular na Idade Moderna’ acrescenta: “era uma representação do mundo virada de cabeça para baixo. O que é claro é que o carnaval era poliscênico, significando coisas diferentes para diferentes pessoas. Os sentidos cristãos foram sobrepostos ao pagãos, [...]. Os rituais transmitem simultaneamente mensagens sobre comida e sexo, religião e política. A bexiga de um bobo, por exemplo tem significados diversos, por ser uma bexiga associada aos órgãos sexuais, por vir de um porco, o animal do carnaval por excelência e por ter sido trazida por um bobo, cuja ‘fertilidade’ é simbolizado por ser vazia.”

Para Burke o carnaval popular da Idade Moderna na Europa era o momento da “inversão social”, uma festa inteligente em que os pobres poderiam vingar-se dos ricos, fantasiados poderia jogar ovos podres e espancar os nobres, xingar os políticos sem medo das conseqüências, na verdade, depois de um ano todo de subjugação da sociedade verticalizada e impositiva, era naquele momento "festivo e medonho" que as estruturas sociais se invertiam, se metamorfoseavam. Um mundo de ponta cabeça, dual, que acima de tudo revelava um momento ‘sagrado-profano’ para banalizar a vida pública em detrimento dos costumes e interesses privados.

Depois de tanto tempo, vendo os sentidos cômico, satírico e irônico das festas carnavalescas se perderem entre as vielas da contemporaneidade, o  carnaval do centro passou a ter uma conotação mercadológica (dos blocos e camarotes elitizados), esvaziando os sentidos históricos que se perdem nas noites dos tempos. Por outro lado, no carnaval periférico nasceram as manifestas por uma rica diversidade, muito embora empobrecidas de sentidos simbólicos em alguns momentos. 

O principal elemento "sagrado" do carnaval é o riso. A expressão do riso com toda sua carga semiótica dos tempos medievais e modernos é se permutou quando pensando a luz do cotidiano. Humberto Eco no seu livro (e depois filme) "O Nome da Rosa" lembrou, satirizando com seu estilo irônico e mordaz a escolástica feudal o valor do "riso" (é proibido rir no mosteiro, motivo para os assassinatos).

No centro da festa é tempo de esvaziamento de sentidos nas festas carnavalescas elitizadas, até parece que foram banalizados os rituais carnavalescos do riso e da ironia, principalmente, em louvor do espetáculo "sem brilho" do carnaval made in televisão brasileira, esvaziando sentidos, resumindo as festas pejorativamente e de maneira apelativa ao consumo exacerbado. No sistema periférico do carnaval a diversidade e o colorido das festas carnavalescas atuais "pode" ser rica de expressividade quando abarca muitos sentidos e símbolos da espontaneidade do povo, principalmente quando perpassado pela simbólica inversão social. A festa é uma oportunidade de expressar a diversidade cultural, mais também de desmoralizar os "costumes comuns", os poderes instituídos ou as vergonhas nacionais. No carnaval o pecado está na conformação, festejar o óbvio ou apenas a carne não é carnaval (carnavalis).


Na periferia da festa, o sagrado e o profano se unem para expressar a identidade de um povo e as cores da alegria e da devoção ao carnaval. É momento de expressar a identidade de um povo simbolizando de onde este povo carnavalesco vêm (das classes de baixo, democratizando os espaços):



portela
é a deusa do samba, o passado revela
e tem a velha guarda como sentinela
e é por isso que eu ouço essa voz que me chama 
portela
sobre a tua bandeira, esse divino manto
tua águia altaneira é o espírito santo
no templo do samba


as pastoras e os pastores

vêm chegando da cidade, da favela
para defender as tuas cores
como fiéis na santa missa da capela

salve o samba, salve a santa, salve ela
salve o manto azul e branco da portela
desfilando triunfal sobre o altar do carnaval (Portela na Avenida - Clara Nunes) 


Para o carnaval dos trópicos "não existe pecado do lado de baixo da linha do Equador" e também poderia ser perpassado pela riqueza de sentidos de um mundo construído de ponta cabeça, principalmente quando o carnaval é construído entre dois mundos, o "centro e a periferia" carnavalescas.